Você seria capaz de distinguir uma raça de outra apenas olhando para uma imagem? Considere a raça Doberman Pinscher, uma das raças mais conhecidas e populares em todo mundo. A imagem abaixo mostra dois Doberman Pinschers, um deles de orelhas caídas e cauda longa, e o outro de orelhas em pé e cauda curta. O cão da esquerda é como os Dobermans costumam nascer, e o da direita tem a aparência que nós estamos acostumados a vê-los: com as orelhas cortadas e a cauda amputada, por nós humanos.

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Dobermans com atributos diferentes: um com seus atributos naturais (esquerda) e o outro (direita) com aparência modificada por humanos (Crédito/Copyright: “anetapics/Callipso/Shutterstock”).

Estes procedimentos são conhecidos por cauda e orelhas cortadas ou amputadas, e são normalmente feitos nesta raça e em muitas outras também. Dizem que os procedimentos começaram a ser feitos pelos Romanos, pois eles acreditavam que as caudas espalhavam doenças como a raiva, e que depois fazendeiros, caçadores e lutadores de cães deram continuidade porque acreditavam que os procedimentos evitavam que presas e cães adversários pudessem derrubar o cão pela cauda ou escalpelá-lo pelas orelhas.

Hoje, estas alterações cirúrgicas têm se tornado tão normais para algumas raças que ficou até difícil reconhecer os cães que possuem orelhas e caudas intactas. E isso acabou se tornando tão comum, que pesquisas mostram que existe até um percentual bastante impressionante de pessoas que acreditam que alguns destes cães já nascem com estas caudas e orelhas amputadas.

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Doberman filhote como veio ao mundo (Crédito/Copyright: “Jana Behr/Shutterstock”)

Uma estudante da Universidade de Colúmbia, na Inglaterra, se interessou por cirurgias médicas desnecessárias realizadas em animais — um assunto que inclui cortar as garras dos gatos e as cordas vocais dos cães para que não latam, além de amputar caudas e cortar orelhas.

Junto a um de seus professores e mais um colega de classe, esta estudante chegou a publicar uma revisão da literatura científica e história de amputação e corte no início deste ano no Jornal da Associação de Medicina Veterinária Americana.

Enquanto pesquisavam, notaram que outras pesquisas sobre estes procedimentos eram apenas baseadas em opiniões individuais de veterinários e criadores. Foi então que ficaram curiosos sobre a opinião de pessoas comuns sobre o assunto.

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Doberman com suas orelhas modificadas pela cirurgia (Crédito/Copyright: “Vtls/Shutterstock”)

Esta curiosidade levou a outro estudo cujas descobertas acabaram sendo publicadas na PLOS One, uma revista científica de acesso livre disponível apenas online, publicada pela Biblioteca Pública de Ciência, que cobre principalmente pesquisa primária de qualquer disciplina na área da ciência e medicina.

Primeiro, a estudante e colegas pediram para 810 participantes americanos, todos online, olharem a imagem do Doberman de orelhas e cauda amputadas, assim como fotos de outras três raças de orelhas e caudas alteradas, como: o Boxer, o Schnauzer miniatura e o Brussels Griffon.

Quando deram uma lista de 10 características — incluindo cor de pêlo e número de dentes — e pediram para identificar se estas características seriam hereditárias ou causadas pelo homem, a grande maioria dos participantes responderam que os cães haviam nascido com as orelhas e caudas amputadas.

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Mini Schnauzer cinza filhote com suas características naturais de nascimento (Crédito/Copyright: “Jana Behr/Shutterstock”)

Depois, mostraram o par de fotos do Doberman acima ou pares de fotos similares de outras três raças a 392 outros participantes: uma com uma foto cirurgicamente modificada, e outra em estado natural. Disseram aos participantes que os cães eram raças puras e parentes um dos outros.

Quando pediram que explicassem as diferenças nas orelhas e caudas, 42% deles responderam que “indivíduos da mesma raça variam na aparência, e que alguns possuem caudas e orelhas de diferentes formatos e tamanhos.” Em outras palavras, estes participantes acreditam que alguns cães simplesmente nascem dessa forma.

As pessoas não querem saber

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O pequeno Corgi com bandagens nas orelhas após cirurgia (Crédito/Copyright: “/Shutterstock”)

Von Keyserlingk, a co-autora do estudo, diz que os resultados dessa pesquisa indicam que muitas pessoas passaram a aceitar as típicas aparências dos cães pelo valor nominal e não como produto de decisões humanas por séculos a fio. Ela ainda acrescenta que acredita que a falta de consciência pode ser até intencional. Na opinião de Von Keyserlingk, as pessoas costumam se desconectar de coisas que acreditam ser desconfortáveis e normalmente não querem saber maiores detalhes sobre o assunto.

A realidade é que estes procedimentos não são agradáveis se pararmos para pensar sobre eles. A amputação da cauda é feita por veterinários ou criadores quando os filhotes têm de três a cinco dias de vida, cortando a cauda com tesouras ou bisturis ou até amarrando um elástico ao redor delas para obstruir a circulação até que a cauda gangrene e caia.

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Sttafordshire Terrier com suas orelhas amarradas em bandagens para ficarem eretas (Crédito/Copyright: “otsphoto/Shutterstock”)

Anestésicos são raramente usados. Veterinários normalmente, mas nem sempre, cortam as orelhas dos filhotes com 7 a 12 semanas e usam anestésicos. Depois de cortar as orelhas no formato escolhido pelo dono, as orelhas são presas para cima por meses, primeiro com um copo de isopor e depois com esparadrapo, até que cicatrizem e fiquem eretas por si só.

A amputação da cauda e orelhas são hoje proibidas em muitos lugares da Europa e Austrália. Não é o caso da América do Norte e até América do Sul, embora as associações médicas veterinárias se oponham aos procedimentos e escolas veterinárias não ensinem mais a cortar as orelhas. Apenas dois estados limitam, mas não proibem a amputação da cauda; e nove limitam o corte de orelhas. Aqui no Brasil não é proibido e tanto veterinários como criadores desempenham a prática livremente.

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Boxer adulto com suas orelhas eretas pela cirurgia (Crédito/Copyright: “Africa Studio/Shutterstock”)

O principal motivo que faz com que as cirurgias continuem é a resistência dos criadores. A amputação de cauda e corte de orelhas são consagrados em muitos “padrões de raças,” guias detalhados de como cães de exposição devem ser. Alguns não são tão rígidos com relação às orelhas; a AKC diz que as orelhas do Doberman, por exemplo, são “normalmente cortadas.”

Mas os padrões para as 4 raças citadas no estudo das estudantes de Columbia acima descrevem os cães com caudas amputadas, e os padrões para o Boxer e o Schnauzer Miniatura dizem que cães que apresentem suas caudas naturais de nascença serão “severamente penalizados.”

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Boxer adulto com suas orelhas ao natural (Crédito/Copyright: “Jeff Thrower/Shutterstock”)

A AKC diz que os procedimentos não são nem dolorosos nem puramente estéticos. Ao invés, a organização diz que isso ajuda o cão a “desempenhar as tarefas que eles foram criados para desempenhar”. Brussels Griffons eram tradicionalmente mantidos em estábulos para controlar pestes, e as orelhas cortadas evitavam que ratos as mordessem.

Defensores ainda argumentam que orelhas cortadas evitam infecções de ouvido ou lesões, e a amputação da cauda previne lesões na cauda. Outros ainda argumentam que se veterinários não fossem permitidos fazer o procedimento, os donos tratariam de achar alguém desqualificado para fazer.

Pesquisas não comprovam a maioria destas afirmações. Mas como as estudantes já haviam concluído, as raças mais suscetíveis a infecções de ouvido não são tradicionalmente modificadas, como os Cocker Spaniels, que possuem orelhas pendentes.

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O Springer Spaniel – cachorro de caça- com sua cauda amputada (Crédito/Copyright: “bon9/Shutterstock”)

Muitas raças trabalhadoras, como os Labradores Retrievers e os Spaniels, também possuem orelhas caídas. De acordo com Bronwen Dickey, jornalista americana autora do livro sobre Pit Bulls, chamado “Pit Bull: The Battle over an American Icon”, a maioria dos cães de luta abandonaram as orelhas cortadas em 1970, pois seus donos decidiram que isto os deixavam ainda mais vulneráveis.

Embora medir dor em animais seja difícil, pesquisas disponíveis sugerem que amputação de cauda dói. Um estudo australiano mostrou que veterinários acreditavam ser doloroso, enquanto criadores não. Outro estudo com 50 filhotes mostrou que todos eles “se debateram e latiram repetidamente e de maneira intensa” durante e depois da amputação. Os supostos benefícios também não são bem comprovados: dois estudos concluíram que lesões de cauda são tão raras que teriam que ser feitas centenas de amputações para prevenir uma.

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Filhote de Boxer de orelhas pendentes naturalmente e aparência dócil (Crédito/Copyright: “Olga Selyutina/Shutterstock”)

E ainda há o fato de que a maioria dos cães nos Estados Unidos ou em outros países são animais de estimação em grandes metrópoles e não mais usados para caça ou outras atividades do gênero. Portanto, estes procedimentos são normalmente feitos por razões puramente estéticas ou por “tradições” impostas pelo tempo, ou porque seus donos desejam que estes cães tenham uma aparência mais agressiva.

Segundo o antrozoologista australiano Pauleen Bennett e um colega que escreveram sobre questões relacionadas a amputação de cauda em 2003: por um lado, cães são reverenciados como companheiros amados por seus donos, por outro lado, eles são vistos como objetos, dispostos a ser comprados e vendidos, eutanasiados, maltratados, explorados e cirurgicamente modificados como bem queiram.

Caudas podem falar

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As diferentes leituras que uma posição de cauda pode dar: cauda abaixada (acuado, submisso) e cauda levantada (alerta, brincalhão) (Crédito/Copyright: “Photick/nipon thunggatgaw/Shutterstock”).

Estes procedimentos cirúrgicos também podem afetar a maneira como as pessoas e outros animais percebem os cães. Imagine um cão bonzinho e amável. Há grandes chances de você ter imaginado um cão de orelhas caídas — como as orelhas da maioria dos cães domésticos — e a sua cauda é relaxada e abanando.

O modo como esta cauda se parece e se move diz algo. De acordo com um estudo, cachorros grandes costumam se aproximar mais de outro cachorro que esteja com uma cauda longa abanando — que indica o desejo de brincar ou interagir de maneira amigável — e menos inclinado a se aproximar de um mesmo cão que esteja com a cauda parada. O curioso é que estes mesmos cães se aproximariam também de um cão com a cauda amputada da mesma forma, em movimento ou não, o que indica que não se pode identificar os sinais do cão.

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O Pit Bull Terrier de orelhas eretas passa a impressão de uma aparência muito mais agressiva do que a raça é realmente (Crédito/Copyright: “InBetweentheBlinks/Shutterstock”).

A ciência mostra que um cachorro que tenha sido cirurgicamente modificado, com a sua cauda amputada, pode estar deixando de se comunicar de forma efetiva com outros cães. (artigo publicado por Daron Taylor, no jornal americano The Washington Post).

Como diz Julie Hecht, blogueira de ciência canina para o Scientific American: “Em comunicação intraespecífica, é importante ter todas as partes do corpo, pois a cauda é uma parte instrumental deste repertório comunicativo inteiro.” Não há estudos com relação às orelhas em comunicação canina, embora behavioristas caninos dizem que elas podem expressar agressão ou estado de alerta.

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Buldogue francês e suas orelhas eretas (Crédito/Copyright: “Patryk Kosmider/Shutterstock”)

Mas a estudante inglesa descobriu que a aparência das orelhas pode certamente influenciar a imagem do cão junto a caudas amputadas. Para o seu estudo mais recente, ela pediu para que os participantes olhassem fotos de cães e seus donos e atribuíssem características a eles. Cães com orelhas e caudas amputadas foram identificados como mais agressivos e dominantes que cães que não foram modificados.

Segundo o estudo, o resultado pode promover conflito desnecessário entre pessoas e cães, e pode ainda afetar os abrigos de animais, em que as pessoas desejam adotar cães de boa aparência, que pareçam dóceis e bonzinhos. O pior dessa história toda toda, é que ao cortar as orelhas do cão, acaba-se criando uma aparência super alerta e agressiva, mesmo que não seja a forma que o cão esteja querendo se apresentar. Em termos de como os cães são vistos pelos humanos, isso não é bom. É melhor ser visto como amigável, dócil e acessível.