Wayne Pacelle é o presidente e chefe executivo da Humane Society dos Estados Unidos e costuma levar sua cadela Lily, uma mistura de Beagle, para trabalhar com ele em seu escritório em Washington, D.C. Para Pacelle, os animais são um ingrediente necessário para o seu bem-estar emocional. Ele conta que lida com questões muito estressantes e vê crueldades terríveis todos os dias, mas quando Lily deita a cabeça em seu colo, ele é capaz de ficar calmo na mesma hora.

Pacelle não pode documentar de forma científica os efeitos positivos que ele consegue obter da sua conexão com Lily (ou Zoe, sua gata), mas a sua experiência comprova aquilo que pesquisadores que estudam interação human/animal já haviam concluído: animais de estimação, especialmente cães, são bons para a saúde mental e física do ser humano.

De acordo com Brian Hare, professor associado de neurociência cognitiva na Universidade de Duke, cães fazem bem às pessoas e hoje podem ser vistos em courtrooms, salas de exames e estudos, hospitais, asilos, clínicas, salas de aulas, aeroportos e em tudo quanto é lugar onde eles possam ajudar pessoas a se sentirem melhor em situações estressantes. Segundo Hare as pessoas parecem responder de maneira positiva aos cães.

A morte de um cão pode doer tanto quanto a morte de um parente

Cachorro lendo na cama com o seu dono (Crédito/Copyright: “Agnes Kantaruk/Shutterstock”) Cientistas acreditam que a principal fonte para as reações positivas das pessoas com relação aos animais de estimação vem da ocitocina, um hormônio que entre muitas de suas funções inclui estimular os laços sociais, relaxamento e confiança, e aliviar o stress.

Pesquisas já mostraram que quando humanos interagem com cães, os níveis de ocitocina aumentam nas duas espécies. Hare explica que quando pais olham nos olhos de seus bêbes e o bebê retribui o olhar, mesmo sem poder dizer uma palavra, os pais obtém uma carga extra de ocitocina apenas por esse contato do olhar. Hare acredita que os cães de alguma forma roubaram esse percurso de ligação da ocitocina, para que só pelo olhar ou por brincar e abraçá-lo, a ocitocina suba em ambos.

Esta é a verdadeira razão dos cães serem tão maravilhosos em qualquer tipo de situação estressante. E não é só Hare que acredita nessa teoria. Miho Nagasawa, um pós-doutorado na Universidade Jichi de Medicina em Shimotsuke, Japão, descobriu que a troca de olhares entre humanos e seus cães aumenta os níveis de ocitocina do dono, o que ajuda a diminuir os níveis de ansiedade e excitamento, e desacelera os batimentos cardíacos. Nagasawa afirma que a interação positiva entre humanos e cães através do olhar mútuo pode reduzir o stress de ambos.

Cães de terapia ajudam os estudantes a lidar com a pressão do estudo

Cão Poodle estudando no computador com o seu dono (Crédito/Copyright: “Anchiy/Shutterstock”) A história nos fornece inúmeras estórias — algumas provavelmente duvidosas — sobre os benefícios terapêuticos dos cães, tanto físicos como psicológicos. No antigo Egito, por exemplo, as pessoas acreditavam que a lambida do cachorro podia curar dores ou lesões (deve haver um embasamento científico para isso, porque saliva de cachorro contém substâncias antibacterianas e antivirais, assim como fatores de crescimento); no século XIX instituições mentais na Inglaterra, animais de estimação eram usados para acalmar residentes; em 1880, uma antiga enfermeira durante a Guerra Civil chamada Florence Nightingale já dizia que animais pequenos eram uma companhia excelente para doentes, especialmente para casos crônicos.

Na atualidade, a ciência tratou de nos fornecer parâmetros mais convincentes. Um estudo datado de 1980 mostrou que vítimas de ataques cardíacos que possuíam animais de estimação duravam mais de um ano em comparação aqueles que não tinham nenhum, uma descoberta que foi reproduzida 15 anos mais tarde.Outros estudos já mostraram que ter um animal de estimação parece diminuir fatores de riscos de doenças coronárias que envolvem pressão arterial, colesterol e triglicerídeos, entre outras coisas.

Um estudo feito em 2009, por exemplo, investigou 4.435 pessoas, mais da metade possuíam gatos, e significantemente menores riscos de mortes por ataques cardíacos para aqueles que possuíam gatos. Outro estudo, entre 240 casais, descobriu porcentagens baixas de problemas cardíacas e pressão arterial entre aqueles que possuíam animais de estimação. Estas pessoas também apresentaram respostas suaves ao stress e uma recuperação mais rápida com relação ao stress quando estavam na companhia de seus animais em comparação a uma esposa, marido ou amigo(a).

E por falar em se manter saudável, não é surpresa para ninguém que ter um cachorro pode nos ajudar a ficar mais ativos. Um estudo envolvendo mais de 2.000 adultos descobriu que donos de cachorros que costumam caminhar regularmente com seus cães eram mais ativos fisicamente e menos suscetíveis à obesidade que aqueles que não possuíam cães ou não caminhavam com eles.

Outro estudo realizado entre mais de 2.500 pessoas de 71 a 82 anos, descobriu que aqueles que caminhavam comseus cães regularmente tendem a andar mais rápido e por períodos mais longos a cada semana comparados àqueles que não possuíam cachorros. Eles também apresentaram uma enorme mobilidade dentro de casa. Alguns pesquisadores sugerem que uma infância exposta à cães e gatos pode proteger e evitar o desenvolvimento de alergias e asma na vida futura, possivelmente devido ao contato com os micróbios dos animais enquanto o sistema imunológico da criança ainda está em desenvolvimento.

Cuidadores caninos

Cachorro cuidando de seu dono doente lhe fazendo companhia (Crédito/Copyright: “Daxiao Productions/Shutterstock”) Outra estória bacana é a da Denise Harris de Colúmbia, que tem artrite reumatóide há 30 anos; e quando ela está se sentindo mal, ela tira sonecas com seus cachorros, dois Wolfhounds irlandeses machos chamados Carrick e Fearghus. Ela conta que Fearghus, apesar de ser macho, é como uma mãe quando ela está prestes a adoecer, ao pressentir o que está por vir antes mesmo que Denise perceba escoltando-a para a cama ou sofá. Poucas horas depois, Denise está com febre, e Fearghus literalmente monta guarda ao lado dela até que a febre baixe e vai embora.

Já Carrick, denise diz ser a sua muleta. Durante os invernos mais rigorosos, ele se coloca ao seu lado para que ela consiga apoiar-se nele ajudando-a a se levantar e ainda usá-lo como apoio para locomover-se pela casa. Claro que depois de uma estória como essa, nem precisa dizer que os hounds são ótimos para a saúde da Denise. Sem falar que ela ainda faz longas caminhadas com eles e sempre conta com um abraço de Fearghus quando está deprimida.

Cachorro contemplando pôr-do-sol com seu dono na praia (Crédito/Copyright: “Andrea Obzerova/Shutterstock”) Não é à toa que Centros de Controle e Prevenção de Doenças e Institutos de Saúde estão cada vez mais interessados no potencial que um animal de estimação pode ter na saúde: todos recomendam que cientistas levem animais de estimação em consideração ao conduzir pesquisas sobre saúde e o impacto que isso tem sobre seus donos.

Lori Kogan é uma professora de ciências clínicas de uma Universidade de Medicina Veterinária do Colorado e editora do Boletim de Interação Humana-Animal, ela diz que animais de estimação podem ser muito úteis para pessoas que estão passando por dificuldades emocionais. Ela afirma que os cães possuem um impacto positivo na depressão e na ansiedade. Segundo Lori, quando alguém perde um parente muito próximo ou um grande amigo, por exemplo, ter um cachorro pode significar uma razão para se levantar da cama e continuar a viver. E para os mais idosos, a companhia de um cão pode ser o único relacionamento que possuem.

Solidão pode ser depressiva, mas pode ter ajudado humanos a sobreviver

Cachorros ajudam as pessoas a se recuperarem de depressão e ajudam a não sentir-se sozinho (Crédito/Copyright: “Kalamurzing/Shutterstock”) Em um estudo, pesquisadores concluíram que mulheres que moram sozinhas eram “significantemente mais solitárias” que aquelas que moravam com seus animais de estimação em casa, e ainda notaram que ter um animal de estimação pode até compensar a ausência de uma companhia humana. Isto explica o valor que muita gente dá para os cães de terapia ou terapêuticos, que são especialmente treinados para ajudar as pessoas a lidar com preocupações, infelicidade e ansiedade, além de também serem capazes de reduzir a percepção da dor.

É muito comum o uso de cães de terapia nos Estados Unidos, principalmente, para ajudar veteranos de guerra a lidar com doenças pós-traumáticas de estresse e também usados para ajudar a acalmar crianças autistas. Cães de terapia foram levados para os jogos olímpicos americanos em Omaha para acalmar os nadadores que estavam sofrendo de nervosismo antes da competição.

Golden Retrievers também foram levados para Orlando para servir de conforto aos sobreviventes e aos que perderam entes queridos na tragédia na boate Pulse, o tiroteio que deixou 12 mortos em junho deste ano. Uma casa funerária em Nova Iorque fornece cerimônia de velório com um cachorro que até “reza” junto (pode acreditar!). Outro estudo ainda descobriu que cães de terapia e animais de estimação podem ajudar estudantes que sofrem com a falta da família e de casa em seus primeiros anos de faculdade e ainda ajudam a diminuir a porcentagem de de desistências durante este período de faculdade.

Mas claro, há também ocasiões em que a interação emocional com os animais de estimação pode ser difícil. Como por exemplo quando eles se comportam mal, adoecem, ou até vem a falecer. Verdade seja dita, cães são como crianças: são capazes de ser fonte inesgotável de alegria e prazer e ao mesmo tempo enormes preocupações. Mas, em geral, tirando as preocupações e a dor, a maioria dos donos de cães que conhecemos dirão que os benefícios são simplesmente incontáveis — vale cada segundo na sua companhia.