Sabemos que as doenças infecciosas que acometem cachorros podem ser muito graves e até mesmo fatais. Uma dessas doenças é, sem dúvida, a parvovirose. No entanto, se diagnosticada logo, a parvovirose tem cura.

No Brasil, os primeiros surtos de infecção pelo vírus ocorreram por volta de 1980, atingindo cães de
todas as idades. Atualmente, a parvovirose canina é considerada uma doença endêmica no país, apresentando caráter extremamente contagioso e acometendo, principalmente, animais jovens, com até 6 meses de idade, não vacinados e/ou imunossuprimidos.

Vamos conhecer um pouco mais sobre essa doença infecciosa.

Parvovirose tem cura? Afinal, o que é o Parvovírus?

Parvovirose é o termo utilizado para designar a enfermidade infecto-contagiosa, cujo agente etiológico é um vírus chamado parvovírus canino tipo 2 (ou CPV-2), pertencente a família Parvoviridae, gênero Parvovirus.

Essa doença provoca mortalidade em um número considerável de cães até os dois anos de idade.

Desde o seu surgimento, já foram identificadas três variantes denominadas: CPV-2a, CPV-2b e CPV2c. Estudos que vinham sendo conduzidos no Brasil indicavam uma maior prevalência do
CPV-2b, entretanto, atualmente o CPV-2c vem assumindo um importante papel na epidemiologia das infecções por parvovírus canino.

Trata-se de um vírus esférico, com 18 a 26 nm de diâmetro, capsídeo icosaédrico e desprovido de envelope. Seu genoma é constituído por uma molécula de DNA linear fita simples.

É altamente resistente à inativação, podendo permanecer viável por meses ou anos em temperatura ambiente. As partículas virais não são inativadas pela maioria dos desinfetantes, porém, o hipoclorito de sódio, em contato com o vírus por um tempo prolongado é eficiente para a inativação do mesmo.

O parvovírus canino responsável por gastroenterite aguda parece estar limitado somente aos canídeos. Infecções naturais têm sido, de fato, descritas em cães domésticos (Canis familaris), cães-do-mato (Speothos venaticus), coiotes (Canis latrans), lobinhos (Cerdocyon thous) e lobos-guarás (Chrysocyon brachyurus).

Transmissão da Parvovirose

Primeiramente, é importante esclarecer que o vírus é transmitido pela eliminação fecal e a porta de entrada é a via oral.

Durante o período agudo da doença, ou seja, 1 a 2 semanas após a contaminação inicial, são excretadas muitas partículas virais nas fezes. No entanto, o vírus pode estar presente em outras secreções durante essa mesma fase.

Pessoas que entram em contato com animais contaminados, podem acabar transportando material infeccioso para outros ambientes, contaminando assim, outros animais. Por isso, recomenda-se a higienização correta de fômites, ambiente e vestuário.

Acredita-se que a disseminação da doença se dá muito mais pela persistência do vírus no meio ambiente do que pelos portadores assintomáticos. A eliminação ativa do vírus nas fezes parece estar limitada nas primeiras duas semanas pós-inoculação. Entretanto, existem evidências que alguns cães podem eliminar o vírus periodicamente por mais de um ano.

Sinais e sintomas da Parvovirose

Os sinais de enteropatia começam, geralmente, 4 a 7 dias após a contaminação.

O parvovírus causa anorexia, depressão, febre, vômito e principalmente diarreia que pode ser abundante e até mesmo hemorrágica. Outra característica marcante, é o forte cheiro das fezes.

A parvovirose tem cura quando tratada desde o início. No entanto pode tornar-se fatal, particularmente em filhotes muito novos ou em cães de raças altamente suscetíveis como veremos à frente.

Além disso, a severidade da doença pode aumentar em presença de outros fatores concomitantes como estresse, condições de canil superlotado e/ou com higienização precária, infecção bacteriana secundária e doenças intercorrentes como cinomose, coronavirose, salmonelose, entre outras.

Durante o quadro clínico da doença, o animal infectado deve ser mantido isolado dos outros cães da casa. Além disso, deve-se evitar também a contaminação de jardins e lugares difíceis de serem desinfetados, e que, portanto, possam favorecer a persistência da partícula viral infectante.

Após a infecção ambiental recomenda-se o vazio sanitário por um período mínimo de 30 dias para introdução de outro animal.

Fatores Predisponentes

Fatores predisponentes à moléstia grave são a idade, os fatores genéticos, condições imunológicas, estresse e infecções simultâneas com parasitas e/ou bactérias intestinais.

A idade tem mostrado uma forte relação com o agravamento da enfermidade. De fato, filhotes com menos de seis meses de idade apresentam uma necessidade maior de internação e cuidados intensivos, quando comparado com animais mais idosos.

Além disso, algumas raças de cachorros parecem ter mais riscos e suscetibilidade à forma mais severa da doença. Entre elas estão os Rottweilers, Dobermans, Pit Pulls, Pastores Alemães, e Labradores. O motivo desta suscetibilidade, no entanto, é desconhecida.

Como é feito o diagnóstico da parvovirose?

Antes de tudo, é feito o diagnostico clínico, ou seja, é feita a avaliação física do paciente com anamnese adequada.

O diagnóstico clínico da parvovirose é sugestivo, mas deve sempre ser diferenciado de gastroenterites bacterianas como a salmonelose e de outras gastroenterites virais como a cinomose.

O diagnóstico laboratorial do parvovírus canino pode ser realizado pela detecção do vírus nas fezes, vômitos ou na necrópsia.

Existem diversos testes disponíveis para auxiliar no diagnóstico e assegurar um tratamento rápido e eficaz, conforme a fase da doença:

Hemograma

O parvovírus tem atração por células que se multiplicam rápido, como as células das criptas intestinais e as precursoras da medula óssea.

Um dos achados mais característicos do hemograma de um animal doente, é certamente a neutropenia, ou seja, o nível muito baixo dos neutrófilos que são um tipo de glóbulo branco, que ajudam no combate das infecções destruindo bactérias e fungos.

A neutropenia é, portanto, um achado importante da parvovirose, contribuindo para a progressão sistêmica de infecções bacterianas.

A linfopenia, ou seja, a quantidade reduzida de linfócitos no sangue, também pode ser vista, já que acompanha infecções virais em geral.

Deve-se ter em mente que o hemograma registra um panorama momentâneo do quadro clínico do animal. Sendo assim, recomenda-se repetir o exame 24 a 48 horas após a admissão ao hospital caso não haja alterações iniciais ou, ainda, para monitorar as contagens leucocitárias durante o tratamento.

Bioquímica Sérica

Hipoglicemia (diminuição da glicose), hipocalemia (diminuição do potássio), azotemia pré-renal (ureia e creatinina aumentadas) e bilirrubina ou enzimas hepáticas aumentadas são usualmente obtidos nestes casos, através da análise bioquímica sérica. No entanto, os resultados são inespecíficos, ou seja, podem estar associados a outras doenças.

Sorologia

A detecção de anticorpos dos tipos IgM ou IgG pode ser útil como apoio à confirmação da doença.

Títulos elevados de IgM são esperados após infecção natural ou vacinação recente (em especial a primovacinação). Desta forma, títulos altos de IgM em um animal sem histórico de vacinação e com quadro clínico compatível são diagnósticos.

Com o tempo, ocorre uma mudança no perfil de produção de anticorpos, no qual predominam os anticorpos do tipo IgG. É importante a repetição do exame em 2 a 4 semanas para verificar se houve soroconversão nos casos duvidosos.

Pesquisa de vírus por microscopia eletrônica:

Este teste é muito eficiente já que através do microscópio é possível identificar o agente causador da Parvovirose. No entanto, não é certo que o vírus esteja presente na amostra coletada, o que pode dar um resultado falso.

Uma vantagem do método é que outros vírus podem ser identificados na amostra sob análise.

Reação em cadeia da polimerase (PCR):

A PCR é uma técnica de alta especificidade e sensibilidade, sendo amplamente utilizada como método diagnóstico do Parvovírus.

Esta técnica é capaz de detectar títulos mínimos do agente em diversos tipos de amostras biológicas, mesmo com o vírus não mais infeccioso. Entretanto, essa técnica molecular exige
infraestrutura laboratorial especializada, além de ter maior custo quando comparada a outras metodologias de diagnóstico.

Hemaglutinação:

A teste de Hemaglutinação é um método específico e rápido para a detecção da Parvovirose nas fezes. Além disso, possibilita a determinação do título viral, sendo um teste quantitativo.

No entanto, após os primeiros dias da enfermidade, o título viral fecal reduz devido à presença de anticorpos no lúmen intestinal que podem se ligar ao vírus, impedindo a hemaglutinação, fato que diminui a sensibilidade da técnica.

Outra desvantagem é a necessidade de constante acesso a suínos saudáveis como doadores de hemácias.

Teste de imunocromatografia

Em um trabalho de avaliação comparativa entre três testes de laboratório para o diagnóstico da parvovirose canina, o teste rápido de imunocromatografia mostrou ser eficaz para a detecção do agente, apresentando maior sensibilidade que o teste de hemaglutinação.

É um excelente método de diagnóstico, levando em consideração o baixo custo e a praticidade na rotina clínica, oferecendo maior segurança para o veterinário, principalmente em situações em que é preciso tomar decisões rápidas, uma vez que o resultado pode ser visualizado após poucos minutos, sem necessidade de qualquer instrumento para leitura, ao contrário dos demais testes.

Este teste, é de fato de fácil acesso aos veterinários já que existem Kits comerciais de diagnóstico.

Parvovirose tem cura?

Finalmente, chegamos ao tão esperado ponto. Sim, parvovirose tem cura. No entanto, o sucesso do tratamento dependerá muito da idade do animal, condição física geral, raça e fase da doença no momento do diagnóstico.

O tratamento recomendado para gastroenterite pelo parvovírus é de suporte. Os principais objetivos do tratamento são, de fato, restabelecer e manter o equilíbrio eletrolítico e minimizar a perda de líquidos.

Nas primeiras 24 a 48 horas, ou até cessarem os vômitos, deve-se suspender completamente a alimentação e ingestão de líquidos por via oral. Recomenda-se a aplicação de fluidoterapia, antieméticos, antibióticos e, em alguns casos, também é necessária a transfusão sangüínea.

Parvovirose tem cura, mas a prevenção é sempre a melhor escolha.

Como vimos anteriormente, parvovirose tem cura. No entanto é sempre mais recomendado prevenir as doenças. A vacinação dos cães é, sem dúvida, o tratamento profilático mais recomendado.

As vacinas confiáveis são aquelas aplicadas por médicos veterinários. De fato, apenas estes profissionais podem adquirir este tipo de medicamento de fabricantes sérios. Além disso, existe todo um controle de temperatura e armazenagem.

Essas vacinas são conhecidas como vacinas polivantentes (conhecidas também como V8 ou V10). São altamente recomendadas pois protegem contra 7 doenças infecciosas graves como cinomose, hepatite infecciosa canina, parvovirose, leptospirose, adenovirose, coronavirose e parainfluenza canina.

A primeira dose deve ser aplicada em filhotes com 45 dias de idade, seguida de reforço a cada 21-30 dias. Depois de terminar as primeiras doses, a vacina deve ser repetida anualmente, durante toda a vida do cachorro.

Apesar de todos os esforços na prevenção e controle da parvovirose canina, esta doença continua a ser um problema na clínica médica veterinária, ressaltando a importância de campanhas de esclarecimento constantes.

Considerações Finais

Caso perceba que seu cão começou a apresentar vômito e diarreia com ou sem sangue, falta de apetite e outros sintomas, leve-o para uma consulta o quanto antes.

A busca por tratamentos caseiros na internet, pode acabar roubando um tempo precioso que poderia ser utilizado para o tratamento do animal. Como vimos, a parvovirose tem sinais que podem ser facilmente confundidos com outras doenças, no entanto, se não tratado a tempo, pode ser fatal.

Cada animal precisará de um suporte personalizado e intensivo, dependendo de seu estado. E quanto mais demorar para buscar ajuda de um profissional, mais tempo o vírus tem para causar danos ao pet.

Referências Bibliográficas:

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