No Brasil, a Leishmaniose Visceral Canina é doença de notificação compulsória. Requer, portanto, uma ampla investigação epidemiológica para definir as estratégias de controle.

Existe, de fato, um programa de controle coordenado pelo Ministério da Saúde que tem como objetivo reduzir as taxas de letalidade, grau de morbidade e riscos de transmissão, mediante controle das populações de reservatórios e do vetor, além do diagnóstico e tratamento precoce dos casos humanos da doença.

O que é a Leishmaniose Visceral Canina?

A Leishmaniose Visceral Canina é uma antropozoonose. Ou seja, é uma doença própria de animais, mas pode ser transmitida de maneira acidental para seres humanos.

É causada por um protozoário parasita que é transmitido entre animais (cães, roedores) através da picada de certos tipos de mosquito. Quando o mosquito infectado pica um ser humano, a doença é transmitida para o homem.

O período de incubação varia de 1 mês a 2 ou mais anos. Os sinais clínicos mais frequentes são:

  • Aumento dos gânglios linfáticos,
  • crescimento exagerado das unhas,
  • perda de pelo,
  • úlceras e descamação da pele,
  • emagrecimento,
  • atrofia muscular,
  • sangramento nasal,
  • anemia,
  • alterações dos rins, fígado e articulações.

No entanto, a Leishmaniose canina apresenta diferentes sinais clínicos e diversos graus de gravidade, podendo estar associada a outras doenças concomitantes.

É importante dizer, também, que trata-se de uma doença que pode ser assintomática. Além disso, mesmo quando tratado, o cachorro permanece um reservatório.

Há dois tipos de Leishmaniose:

Outra informação importante, é que há dois tipos de Leishmaniose: a visceral e a tegumentar.

  • Leishmaniose visceral canina- também conhecida como calazar. É a forma mais severa da doença. Além disso, é considerado o terceiro maior assassino parasitário no mundo, depois da malária e da amebíase.
  • Leishmaniose cutânea (ou tegumentar) – forma mais comum de leishmaniose. Caracteriza-se por feridas na pele que se localizam com maior frequência nas partes descobertas do corpo.

Neste artigo, devido a sua gravidade e importância epidemiológica, focaremos na Leishmaniose Visceral Canina.

A importância da Leishmaniose Visceral Canina no Brasil

No Brasil, a leishmaniose visceral canina possui alta incidência e ampla distribuição. A maior preocupação em relação à doença reside na possibilidade de assumir formas graves e letais quando associada ao quadro de má nutrição e infecções concomitantes.

O Brasil responde por 90% dos casos de leishmaniose visceral canina da América Latina. Em 2016, o Ministério da Saúde recebeu 3.626 notificações de casos da doença em humanos e 275 mortes foram registradas em todo o País. Somente no Estado de São Paulo, foram 119 pessoas atingidas pela doença e 11 óbitos.

A transmissão da leishmaniose visceral canina ocorre pela picada do mosquito-palha e afeta principalmente cães, gatos e humanos. É uma doença que leva ao óbito em até 90% dos casos não tratados e, até recentemente, cães infectados eram submetidos à eutanásia por serem hospedeiros do vetor.

Como é transmitida a Leishmaniose Visceral Canina

A Leishmaniose Visceral Canina é uma doença infecciosa zoonótica grave e, como vimos anteriormente, encontra-se em franca expansão para grandes centros urbanos em todo o Brasil.

É causada por espécies do gênero Leishmania, pertencentes ao complexo Leishmania (Leishmania) donovani. No Brasil, o agente etiológico é a L. chagasi, espécie semelhante à L. infantum que é encontrada, por sua vez, em alguns países do Mediterrâneo e da Ásia.

Este parasita é transmitido pela picada da fêmea do flebotomíneo Lutzomyia longipalpis e Lutzomyia cruzi, este ultimo de ocorrência no estado do Mato Grosso do Sul. Em áreas urbanizadas o cão doméstico é o principal reservatório do parasita.

Os insetos vetores são conhecidos como mosquito palha ou ainda, no interior do estado de São Paulo, como birigui, canguinha ou asa dura. São de habito noturno, ou seja, tem maior atividade durante o entardecer até o amanhecer. Além disso, desenvolvem-se em locais úmidos, sombreados e ricos em matéria orgânica.

A transmissão da doença ocorre quando a fêmea do vetor se alimenta de sangue de um cão infectado. Assim, o parasita se multiplica e desenvolve em seu tubo digestivo, tornando-se, enfim, infectante. Essas formas infectantes da leishmania, no momento da alimentação da fêmea do vetor, serão inoculadas em um novo individuo.

Lutzimyia longipalpis, o inseto transmissor da Leishmaniose Visceral Canina

O mosquito-palha, cujo nome científico é Lutzomyia longipalpis, é um inseto díptero hematófago da subfamília denominada Phlebotominae, subordem Nematocera, família Psychodidae.

Dos gêneros de flebotomíneos, o Lutzomyia é o maior e de mais ampla distribuição geográfica, com representantes desde os Estados Unidos até o norte da Argentina. Além disso, é o principal transmissor da leishmaniose.

Sua a cor é amarelada, possui cabeça com antenas longas, asas grandes, revestidas de cerdas.

Machos e fêmeas possuem algumas diferenças físicas. Os machos, de fato, possuem mandíbulas rudimentares, não sendo capazes de penetrar na pele dos vertebrados e nem de se alimentar de sangue. Os machos são, portanto, fitófogos, enquanto as fêmeas são hematófogas.

O ciclo biológico do L. longipalpis

O ciclo biológico deste inseto se processa no ambiente terrestre e compreende quatro fases de desenvolvimento:

  • ovo,
  • larva (com quatro estágios),
  • pupa
  • adulto.

Após a cópula, as fêmeas colocam seus ovos sobre um substrato úmido no solo e com alto teor de matéria orgânica. Essa escolha, serve para garantir a alimentação das larvas.

Ao eclodirem os ovos, as larvas alimentam-se vorazmente. Desenvolvem-se em média entre 20 a 30 dias, de acordo com as condições do meio ambiente.

Após esse período as larvas de quarto estágio transformam-se em pupas. O período pupal em condições favoráveis tem duração média de uma a duas semanas. No desenvolvimento do ovo ao inseto adulto decorre um período de aproximadamente 30 a 40 dias de acordo com a temperatura.

Em áreas urbanas, os animais domésticos são a principal fonte de alimentação das fêmeas no ambiente doméstico. A longevidade das fêmeas é estimada em 20 dias.

Sinais e sintomas da Leishmaniose Visceral Canina

A maioria dos cães com Leishmaniose, não desenvolve sinais e sintomas clínicos aparentes da doença. Ou seja, na maioria das vezes a doença é assintomática.

No entanto, quando esta se manifesta, os sinais mais característicos são:

  • Feridas (na pele, no focinho, orelhas, articulações e cauda) que demoram a cicatrizar;
  • Descamação e perda de pelos;
  • Crescimento exagerado das unhas, com espessamento e em formato de garras.
  • Problemas oculares, que ocorrem em 80% dos casos. Portanto, sinais como secreções persistentes, piscadas excessivas e incômodo nos olhos, merecem atenção.
  • Nas patas, pode ocorrer infecção (pododermatite). Além disso,  a pele pode se tornar grosseira por excesso de produção da queratina (hiperqueratose dos coxins).
  • Presença de nódulos e caroços. Isso acontece porque o sistema de defesa do organismo age contra o ataque da leishmania. Isso acaba aumentando o volume dos gânglios linfáticos em várias partes do corpo do animal ao mesmo tempo, ou de forma localizada.

Sintomas variáveis da leishmaniose em cães

Além dos sinais e sintomas descritos acima, a leishmaniose visceral canina também possui sintomas variáveis. Ou seja, muitas vezes, o parasita pode prejudicar diversos órgãos internos como rins, fígado, ou mesmo estruturas como o sistema digestivo. Haverá, portanto, sintomas diferentes dependendo dos órgãos afetados.

Entre os sinais mais comuns estão vômito, diarreia, sangramento nas fezes, perda de apetite, desidratação e irregularidade no trato urinário. Quando a medula óssea é atacada, por exemplo, a produção de células sanguíneas diminui. Isso pode gerar anemia e deixá-lo predisposto a novas infecções.

Por conta da incidência no sistema imunológico, o cachorro infectado frequentemente apresenta indícios de outras doenças.

Diagnóstico da Leishmaniose Visceral Canina

Como mencionado anteriormente, muitas vezes o portador da leishmaniose permanece assintomático. Por isso, é de suma importância que o profissional da área esteja atualizado quanto aos métodos de diagnóstico. Inclusive, os exames devem ser de rotina em áreas endêmicas.

Além de ser importante para o tratamento precoce do animal, o diagnostico correto e rápido pode salvar muitas vidas, já que o cachorro infectado torna-se reservatório da doença.

O diagnóstico clínico da leishmaniose visceral canina é difícil de ser realizado devido à variedade de sintomas da doença, que pode ser confundido com muitas doenças como, por exemplo, brucelose, babesiose, toxoplasmose, entre outras.

As alterações laboratoriais encontradas no hemograma, ou nos exames de função renal
ou hepática, são inespecíficos, tornando o diagnóstico laboratorial ou parasitológico
necessários para a confirmação da suspeita.

Os métodos conhecidos atualmente para o diagnóstico da leishmaniose são, portanto, o
diagnóstico clínico, parasitológico, sorológico, imunológico, molecular e cultivo parasitológico.

Os métodos sorológicos que visam a detecção de anticorpos anti-Leishmania são aqueles utilizados principalmente em campanhas de inquéritos epidemiológicos, já que, entre os exames, são os mais precisos, apesar de não serem 100% confiáveis.

Tratamento da Leishmaniose Visceral Canina

A Leishmaniose Visceral Canina é uma doença que não tem cura e representa uma grave ameaça à saúde pública.

Embora não transmitam a doença diretamente a humanos, os cães são o principal reservatório urbano da Leishmania, que infecta pessoas por meio da picada do mosquito-palha. Por isso, o tratamento de animais infectados com medicamentos que não tenham a eficácia comprovada, é proibido no Brasil.

No ano de 2017, os ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e da Saúde aprovaram a comercialização do primeiro medicamento para tratamento da leishmaniose visceral canina: o MilteforanTM, desenvolvido pela Virbac.

A droga, todavia, não cura a doença. No entanto, promove uma grande diminuição na carga parasitária presente no sangue do animal, reduzindo o desenvolvimento dos sinais característicos.

Este tratamento, entretanto, requer monitoramento periódico de um médico veterinário e deverá ser administrado até o fim da vida do animal, assim como devem ser mantidas obrigatoriamente as medidas preventivas.

Todavia, dependendo do quadro de saúde do animal, condição econômica do proprietário e grau de responsabilidade do mesmo, o médico veterinário pode determinar que o medicamento não é uma opção. De fato, o alto custo da droga é outro fator limitante, que pode inviabilizar o tratamento, já que exige acompanhamento veterinário regular e se estende até o fim da vida do animal.

No caso dos animais que não podem ser submetidos ao tratamento, e que não podem permanecer isolados e confinados, é recomendada a eutanásia como forma de prevenção de alastramento da doença.

A medida é prevista no decreto nº 51.838 de 14 de março de 1963, que lista as normas técnicas para o combate às leishmanioses.

Controle e Prevenção

Para evitar a infecção pela leishmaniose visceral canina, os médicos veterinários recomendam a adoção de algumas medidas por parte dos tutores de cães e gatos.

  • Coleiras repelentes: As coleiras com substâncias repelentes estão entre as medidas mais eficientes. A deltametrina é o elemento químico recomendado pela Organização Mundial da Saúde para impedir o contato dos animais com o mosquito transmissor.
  • Barreiras físicas: Revestir janelas e portas de canis ou viveiros com redes e telas é outra medida preventiva eficiente. Como o inseto se alimenta no período noturno, em regiões quentes e com incidência de leishmaniose, é recomendável abrigar os animais em seus refúgios após o fim de tarde.
  • Limpeza de locais abertos: Como o mosquito-palha se reproduz em locais com matéria orgânica, é preciso manter quintais limpos e evitar o acúmulo de lixo e água parada. A higiene é uma das melhores medidas de prevenção contra a Leishmaniose. Terrenos abandonados e locais com muitas árvores e sem manutenção devem ser evitados pelos tutores.
  • Exames periódicos: Todas as medidas acima devem ser acompanhadas de consultas regulares ao veterinário. Somente este profissional está capacitado para identificar os sintomas e promover o tratamento recomendado.
  • Por último, mas não menos importante, há recomendação de vacina que, no entanto, ainda gera polêmicas.

Vacina contra Leishmaniose Visceral Canina

A única vacina aprovada pelo MAPA para o controle da doença, chama-se LeishTec. No entanto, apenas animais soronegativos podem ser vacinados. É, portanto, obrigatório o exame sorológico negativo e exame clínico antes da vacinação, certificando que o animal não apresenta nenhum sintoma clínico da doença.

Isso deve-se ao fato que, após a vacina, o animal pode resultar como positivo para leishmaniose nos exames.

Segundo o site do fabricante, Ceva, Em estudo, a Leish-Tech obteve como resultado 96,41% de proteção contra a Leishmaniose Visceral Canina no grupo vacinado, o que corresponde a 71,3% de eficácia vacinal.

A vacinação deve ser feita a partir dos 4 meses de idade. Deverão ser aplicadas 3 doses iniciais com intervalos de 21 dias e posteriormente, deverá ser feito o reforço anual, como acontece com todas as outras vacinas.

Além disso, deve ser assinado o certificado de vacinação pelo responsável do cão ao iniciar o protocolo vacinal, individualmente para cada animal, o qual deve ser obtido no site da Leish-Tech pelo médico veterinário. É necessário guardar o certificado por pelo menos 3 anos, por recomendação do MAPA.

Enfim, devido à importância da erradicação da doença no País e ineficiência dos métodos de controle utilizados até hoje, está avançando um projeto de lei que torna obrigatória e gratuita a vacina contra Leishmaniose.

O projeto tramita em caráter conclusivo e ainda será analisado pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Confira o Projeto de Lei 1738/2011.

Referências Bibliográficas:

Célia M.F.G., Maria N. M. Leishmaniose visceral no Brasil: quadro atual, desafios e perspectivas. Revista Brasileira de Epidemiologia

Dotta, S.C.N., Estangari, R.F., Zappa, V. – MÉTODOS DE DIAGNÓSTICO DA LEISHMANIOSE VISCERAL CANINA. Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária. Ano VII, Número 12, Jan 2009.

https://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/SAUDE/569957-AGRICULTURA-APROVA-VACINACAO-OBRIGATORIA-E-DE-GRACA-CONTRA-LEISHMANIOSE-ANIMAL.html