Você já se deparou com questões complicadas na vida: ovo ou galinha, criacionismo ou evolucionismo, ser ou não ser, casar ou comprar uma bicicleta. Há muitas outras, claro, mas gente não pretende desvendar nenhuma aqui neste artigo. Ou melhor, não consegue desvendar. Entretanto, uma delas a gente consegue: jumentos e mulas são a mesma coisa?

Sim, essa questão é quase existencial para algumas pessoas. Mas é principalmente para os jumentos e mulas. E, fazendo uma reflexão um pouco mais, digamos, profunda em forma de fábula, como os jumentos e mulas se sentem quando alguém lhes pergunta isso?

A gente vai ajudá-los a se sentir melhor. E tentar colaborar para você também tire suas dúvidas. Comece assumindo que nomes como asno, burro, jumento e mula são popularmente considerados como o mesmo animal. Mas apenas popularmente. Afinal, o dia a dia normalmente rústico das pessoas que convivem com esses animais não permite preocupação com nomenclatura oficial.

Porém, há diferentes básicas. Por outro lado, há tanta informação desencontrada que a coisa como um todo se torna complicada.

Jumentos e mulas: quem são uns, quem são outros

São muitas as definições de jumentos e mulas.


O problema dessa questão existencial é que há outros termos envolvidos. O que é um asno? E um burro, o que é? E outra: jerico, o que é? E mais um: jegue vem a ser o quê? E, forçando um pouco mais a questão, onde o cavalo entra nisso tudo?

Jumentos e mulas, asnos e burros, ainda tem o cavalo… ah! “Ser ou não ser, eis a questão”. Bem, sejamos menos shakspearianos e vamos direto ao ponto.

Uns e outros

Burro

É resultado biogenético produzido por cruzamento do cavalo com uma jumenta, que você vai ver mais abaixo. É também conhecido como besta. É um pouco maior que o asno, isto é, tem por volta de 1,50m ou 1,60m de altura. A fêmea do burro é justamente a mula.

Aliás, a associação do burro com inteligência limitada é conceito assumido já na Grécia Antiga. Séculos depois de ser domesticado, o animal continuava com seu comportamento arredio, teimoso. Essa impressão foi facilmente transferida para a ideia de ser tolo, não aprender tarefas básicas mesmo para um animal.

Interessante: essa fama de o burro ser burro parece ter se iniciado a partir de uma fábula de Esopo, escritor grego antigo. Sua fábula funciona perfeitamente em palestras motivacionais atuais para descrever a função das palavras nos relacionamentos.

Escreveu ele que um burro encontrou uma pele de leão abandonada por um caçador. Resolveu vesti-la e fazer chacotas com outros animais. E deu certo, em princípio. Todos os animais que se deparavam com o burro na pele de leão saíam em disparada. Aquilo aumentou sua autoestima a ponto de não querer mais ser burro.

Entretanto, ele cometeu um deslize pela empolgação. Em dado momento, zurrou alto para os animais que fugiam dele. A raposa, esperta, voltou e reconheceu o burro na pele de leão.

Resultado filosófico: uma pessoa pode enganar muitas outras pela aparência, mas sua real personalidade é demonstrada pelas palavras.

Jerico

Popularmente, a pronúncia é “jirico”. No norte do país, é um burro um pouco menor, ou seja, um burro que não cresceu até o ponto normal.

Jegue

Trata-se de outro nome popular para jerico ou burro.

Os principais

Cavalo

É o fantástico Equus ferus caballus, que já foi personagem central de um dos artigos deste site. É herbívoro ungulado, isto é, possui cascos nas patas, assim como os outros animais acima. A fêmea é chamada égua; machos são chamados garanhão (os não castrados) e capão (os castrados); já os cavalos que ainda não chegaram à fase adulta são chamados de potros. Compõe a família biológica dos asnos e das zebras. Tem alguns traços genéticos com os rinocerontes e com as antas.

Asno

O nome científico desse animal é Equus africanus asinus. Aliás, esse “asinus” no nome é que deu origem ao termo popular asno. É, em verdade, subespécie do asno selvagem africano, como o próprio nome faz deduzir, afinal. Tem focinho e orelhas mais proeminentes (a gente não quis dizer “grande” para não ser politicamente incorreto).

A altura é média, com mais ou menos 1,30m. Desde a pré-história (período imediatamente anterior à invenção da escrita), é usado para auxiliar o homem nas atividades diárias. Foram domesticados há mais de 6 mil anos, pouquíssimo tempo antes da domesticação dos cavalos.

Bem, todas as descrições acima são impressões populares nascidas do relacionamento entre o ser humano e os animais. Certamente, agora as coisas ficaram um pouco mais claras. Entretanto, ainda falta a gente falar justamente sobre as personagens principais deste artigo: jumentos e mulas.

Conhecendo, então, os jumentos e mulas

Jumentos e mulas são animais diferentes.


A gente deixou o cavalo e o asno por último na lista acima. Porém, não foi por acaso. Os jumentos são considerados asininos, ou seja, são da família dos asnos, que você viu acima.

Já os cavalos são equinos. Portanto, são espécies diferentes da mesma família biológica. Os cruzamentos entre as espécies deram origem aos outros, inclusive à mula.

Portanto, jumentos e mulas são animais diferentes. Pelo menos biologicamente. Então, posto que os demais sejam produto de cruzamento entre os equinos e asininos, vamos tratar apenas disso a partir deste ponto neste artigo que é para facilitar a compreensão.

O que são muares?

O termo muar é novo aqui neste texto. E isso foi proposital. Em verdade, muar é nome dado à descendência resultada dos equinos com os asininos. Isto é, quando uma fêmea equina é fecundada por um asinino macho ou um macho equino fecunda uma fêmea asinina, resulta numa espécie muar. Esses animais são chamados híbridos.

Os muares, então, são o burro e a mula, o jegue, o jerico etc. Sendo híbridos, não produzem filhos ou raramente produzem descendentes. O motivo da esterilidade está no número de cromossomos das espécies. Os equinos possuem 64; já os asininos têm apenas 62. Como resultado, os descendentes eventuais têm 53 cromossomos, o que provoca dificuldades genéticas de reprodução.

Essa mescla biológica produziu algo que se pode chamar de superanimal. Os muares apresentam características orgânicas extremamente úteis a determinadas atividades humanas. O metabolismo consegue extrair muito mais nutrientes de alimentação pobre e caminham com mais facilidade em solos irregulares.

Portanto, esses animais são extremamente fortes, resistem muito mais até mesmo à falta de água, o que é excelente para as regiões do norte e nordeste do Brasil. Além disso, são amáveis e sociáveis.

Aliás, a relação entre os nordestinos e nortistas têm uma capítulo à parte neste artigo. Você pode acompanhar logo abaixo.

Uma mula é um muar fêmea do burro, ou seja, resultado do cruzamento entre cavalos e asnos (ou jumentos).

O mundo dos jumentos e mulas

Ao contrário que todos pensam, jumentos e mulas são muito inteligentes.


Ao contrário do que as metáforas populares indicam, jumentos e mulas são extremamente inteligentes. Além disso, são dóceis, amigáveis e altamente sociáveis. Entretanto, a característica que mais os torna apaixonantes é a paciência.

Esse sentido de paciência está cravado na doçura dos olhos dos jumentos e mulas. Por outro lado, e apesar da doçura, são animais extremamente fortes e resistentes. Por isso, sempre foram usados em tarefas em que a força humana é insuficiente.

A resistência físico-orgânica dos jumentos e mulas não é grande apenas em regiões muito frias, quase geladas. De resto, podem ser encontrados no mundo inteiro, em especial em locais com temperatura elevada.

Além de animais de carga (carroças, charretes, cangalhas etc.), jumentos e mulas também são excelentes na força de tração (plantadeiras, carpinagem, aragem etc.). Além disso, ainda são bons de sela. Funcionam como apoio no controle de gado, no prazer de cavalgar (jumentar, dizem os nordestinos) e também em passeios e lazer.

A gestação da jumenta é uma pouco mais duradoura que a da égua: por volta de 12 meses. Jumentos e mulas podem chegar a 35 anos de vida, dos quais a esmagadora maioria é altamente produtiva e laboral.

A inteligência burra dos jumentos e mulas

Como se sabe, o ser humano tem mania de explicar parcamente o que não entende muito bem. Assim, traduz como burrice algumas atitudes dos jumentos e mulas que, em verdade, são expressão de inteligência.

Desta maneira, quando jumentos e mulas não obedecem a um comando, o humano vê isso como teimosia. Por sua vez, a teimosia é vista como resultado da falta de inteligência. Mas, ao contrário, é propriamente grande percepção da realidade à volta do animal. Eles pressentem perigos com muito mais facilidade que o humano, cuja atenção está voltada para outros afazeres.

Assim, os jumentos e mulas empacam; por empacarem, são tratados como teimosos; de teimosos, passam a burros. E a gente fica aqui imaginando de quantos perigos os jumentos e mulas já salvaram seus donos. Pois é!

O tamanho das orelhas dos jumentos e mulas

Até mesmo o comprimento e largura das orelhas dos jumentos e mulas (que são bem maiores que as do cavalo) é resultado de um ato de inteligência. Desta feita, inteligência da natureza, claro. Acontece que, tendo se desenvolvido em regiões rústicas e desérticas, a oferta natural de alimento sempre foi deficitária.

Assim, precisavam buscar alimento cada vez mais longe. Com toda certeza, as possibilidades de se perderem do bando eram grandes. Então, precisavam estar atentos a zurros de outros animais, que estavam distante.

Com o passar das gerações, o ato de levantar as orelhas foi se introduzindo na genética e o órgão foi ficando cada vez maior. Hoje, são capazes de ouvir zurros com até 4 quilômetros de distância. Venhamos e convenhamos, jumentos e mulas são mesmo uma fonte inesgotável de estratégias inteligentes.

Características físicas

Jumentos e mulas se apresentam em diversas cores, mas muito raramente um indivíduo tem mais de uma cor. A cor mais predominante é a marrom escuro.

Quanto ao tamanho e peso, há certa variedade também. Há indivíduos com menos de um metro e outros com até 1,50m de altura. Portanto, o peso também varia. Vai de 280kg a 400kg.

Entretanto, burros e mulas, que são híbridos, são mais altos que jumentos. Porém, isso depende, claro, da genética dos genitores – a égua ou o cavalo com a jumenta ou jumento.

Relação com o homem e as sociedades

Jumentos e mulas foram muito importantes no Egito e são até hoje em outros locais do mundo.


Os jumentos e mulas foram tão importantes no Egito antigo quanto os camelos são hoje para a região do Oriente Médio. Naquela época, já funcionavam como meios de transporte de carga. Aliás, diz-se que a origem desses animais se deu justamente para esse fim.

Além disso, também serviam como fonte de leite e carne. Também sua pele era muito usada na confecção de abrigos contra tempestade de areia e frio. Com tanta funcionalidade para a humanidade, os animais foram ganhando fama e prestígio e acabaram chegando à Europa.

Isso aconteceu alguns milênios antes de Cristo. Chegaram lá por ação dos comerciantes de vinho que se deslocavam para a região. À medida em que se desenvolviam naquelas regiões, foram surgindo variantes de raças:

  • Catalã
  • Cordovesa
  • Andaluz
  • Zamorano-Leonesa
  • Miranda
  • Piemontesa
  • Poitou
  • Gasconhesa

O território brasileiro começou a receber os primeiros jumentos e mulas em 1534, em S. Vicente. Vieram possivelmente da Ilha das Madeiras e Canárias importados juntos com cavalos e éguas. A importação foi providenciada por Martim Afonso de Souza (1490-1571). Pouco tempo depois, a quantidade de jumentos e mulas tinha sido duplicada.

Os jumentos e mulas no Nordeste

Anos depois, tomé de Souza levou jumentos e mulas para o Nordeste. Desde então até alguns anos atrás, os animais foram o principal meio de transporte para os nordestinos, em especial os sertanejos. Os motivos para isso já estão descritos ao longo deste texto: resistência, domesticação, inteligência, paciência, amigabilidade etc.

Quando trabalham sozinhos, isto é, sem presença de semelhantes, os jumentos e mulas são altamente eficientes para controlar e guardar rebanhos de diversos mamíferos. Convivem facilmente com cabras e ovelhas. São capazes de dar a vida para defender seu rebanho de ataques de predadores ou de cães ferozes.

Com tanta eficiência e proatividade, jumentos e mulas acabaram se tornando símbolos do Nordeste brasileiro. Havia tamanha quantidade de exemplares por lá que se iniciou até um programa de exportação. Governos de alguns dos estados da região criaram iniciativas para vender jumentos e mulas para a China, inclusive para consumo como alimento humano. Contudo, a ideia não vingou.

Diversas entidades de defesa animal criticaram acirradamente a iniciativa. Alegaram que, além de tudo, o transporte dos animais vivos seria momento de tormenta para eles. Então, tudo se estagnou. Como resultado, milhares de indivíduos foram deixados à míngua e morreram (e ainda morrem) vítimas de acidentes ou de falta de comida.

Tragédia anunciada

Para completar, desde os últimos anos, esses animais têm enfrentado um problema sério. A tecnologia. O desenvolvimento das motocicletas praticamente relegou os jumentos e mulas a segundo plano na vida dos habitantes daquela região. Esse fato aumentou ainda mais os problemas enfrentados por esses animais.

Assim, jumentos e mulas, cantados em verso, prosa e música por artistas renomados da região, estão esquecidos em locais diversos do Nordeste. Até mesmo Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, os cantou em uma de suas músicas. Nem mesmo o Rei foi capaz de alterar a sorte desses animais.

O jumento Pêga

Por outro lado, há diversas iniciativas para transformar a vida deles. Atualmente, há até mesmo concursos e shows de demonstração das características dos animais. Alguns haras do norte e nordeste estão criando exemplares extremamente valorizados no mercados. Alguns podem chegar a 300 mil reais. Sim, é isso mesmo.

O jumento Pêga, por exemplo, é raça que pode ser chamada de brasileira. Com origem em Minas Gerais, mais precisamente na região de Lagoa Dourada, é considerado o tesouro da pecuária do país. A raça é vista como intensamente produtiva para o campo e também para apresentações.

Diversas organizações de defesa de animais criam iniciativas para preservar o bem-estar desses verdadeiros heróis brasileiros. Participe delas. Envie mensagens para seus amigos e parentes, divulgue este artigo, acelere ações em suas redes sociais para que a vida dos jumentos e mulas seja valorizada tanto quanto seu trabalho em prol dos brasileiros o foi há algum tempo.

E, tendo dúvidas ainda sobre a vida deles, deixe nos comentários abaixo.

Por Serg Smigg

Serg Smigg é jornalista, redator, revisor e analista textual, além de roteirista e escritor. Extremo defensor das causas animais, cria seus textos apresentando conceitos claros sobre a importância desses para a humanidade e caminhos para sejam cada vez mais respeitados. A paralelo, ministra palestras inspiracionais corporativas na área de comunicação interna, externa e interpessoal social. Oferece dicas de gramática e expressividade em seu site smiggcomcorp.wordpress.com.

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