Ele chegou ao Brasil como um intruso, um invasor; disso, o javali passou a colonizador. Alastrou-se pelo sul do país de forma alarmante. Tanto que o Ibama precisou interferir (você vai constatar isso mais abaixo). Esse mamífero de cara amarrada, semblante amedrontador, parece ter causado muitos problemas por onde passou. E principalmente por onde se estabeleceu.

A maioria das horas que passa acordado está rebuscando a terra à procura de alimentos. O interessante disso é que, ao rebuscar a terra, acaba servindo de arado e plantando e replantando os mais diversos tipos de árvores e plantas em geral. Daí, sua importância no contexto ecológico em que muitas áreas no mundo inteiro já foram perdidas por ação de desmatamento.

Sendo onívoro – isto é, se alimenta tanto de vegetais quanto de animais -, se dá bem em qualquer situação. Não havendo planta, come minhocas, insetos, invertebrados e até pequenos mamíferos. Até restos de animais mortos.

O problema é que, quando não encontra animais e a vegetação está escassa, não se faz de rogado e avança sobre propriedades rurais em busca de milho, batata e outros. E de parceiros sexuais, que encontra nas varas dos porcos domésticos.

Aí é que mora o problema. Ele avança sem cerimônia, sem se importar com os estragos que faz.

O Sus scrofa, que é o nome científico do javali, pertence à ordem Artiodactyla e está no mundo há mais de 55 milhões de anos. Aliás, o porco domesticado – esses que fazendeiros criam para abate e comércio em açougues – é descendente do javali atual.

O javali nos detalhes

Não chega a se assemelhar ao bicho preguiça, mas é bem moleirão durante o dia. Exceto quando está atrás de comida. Ele próprio prepara seu lugar de descanso, chamado encame. Na verdade, trata-se de pequenas depressões escavadas por ele mesmo em que se acomoda.

Por outro lado, o encame feito por marrãs, que são fêmeas prenhes, é quase uma obra de engenharia. São ninhos muito bem feitos construídos a partir de grama e gravetos.

Sendo “porco”, o javali gosta de sujeira

De lama, propriamente dita. Mas a coisa não é bem assim. Ele precisa se banhar na lama para regularizar a temperatura do corpo. Como não dispõe de glândulas de suor – ou melhor, estas são atrofiadas -, o javali não sua, claro.

Além disso, algumas pesquisas demonstraram que o banho de lama tem alguma relação social entre os sexos, como se fosse uma sistema seletivo. Ou seja, fora do período do cio, todos os javalis se banham na lama independentemente do sexo.

Dentro do período, porém, parece que apenas os machos se banham. A depender do cheiro, a fêmea pode ou não se encantar por um macho específico. Parece que é assim que o javali consegue manter os odores corporais sob controle.

O predador, o predado e a expectativa de vida

Apesar de não ter predador natural no Brasil, ele pode ser atacado eventualmente por onças e jaguatiricas. O lobo é o predador mais preocupante para a vida do javali no resto do mundo. Quando vivendo em seus habitats, ele chega a 15 anos de vida. Já em cativeiro, este aumenta em poucos anos.

A sociedade do javali

Esse porco enorme gosta de conviver em pequenos grupos – no máximo 6 ou 7 elementos. Porém, esse negócio de marcar território de que outros animais gostam tanto não é com ele. Aliás, até mesmo o machismo não é com ele, pois os grupos são reunidos por fêmeas que, normalmente, agrega suas crias e mais alguns “conhecidos”.

Até há alguns machos, mas estes vivem ao largo do grupo, acompanhando do bando matriarcal. São chamados barrões. Quando montam seu próprio grupo, é apenas ocasional e os componentes são geralmente elementos machos jovens, chamados escudeiros.

Entretanto, há sempre uma fêmea que manda no grupo principal propriamente dito. Geralmente, se mantém um pouco distante, como se fosse uma espécie de guarda. Aliás, ela se chama javalina ou gironda. É sempre a maior e mais forte do grupo.

A javalina é capaz de dar a vida para salvar o grupo. Parece reconhecer que ser líder tem lá suas responsabilidades.Estratégia de defesa

Em sessões de luta física contra eventuais rivais em época de reprodução, as ancas dos machos são vulneráveis a mordidas em golpes dos caninos. Assim, nesse período, o organismo providencia uma espécie de enchimento interno que começa nos ombros e chega até os membros traseiros.

Esse enchimento tem até 3cm de espessura. Além de aumentar a proteção a órgãos extremamente importantes, envolve também o pênis. Dessa maneira, diminui a possibilidade de esse órgão sofrer algum dano durante a contenda.

Estratégia de territorialismo

O cheiro do javali é outra iniciativa inteligente da natureza. Funciona como marcação de território e para informar à fêmea que está pronto para acasalar, se ela estiver no cio. Assim, quantidade maior de pelos – e mais grossos – se acumula na região peniana, em especial próxima ao orifício do órgão.

Assim, os pelos retêm urina e eventual líquido espermático. Dessa maneira, seu cheiro se espalha pelo território e indica que o chefe está ativo. Apesar dessa estratégia, o javali é minimamente territorialista. Prefere manter a vida a defender um lugarzinho qualquer.

Por falar em território, o javali vai buscar locais com muita vegetação a fim de ocultar-se quando necessário. Porém, à noite, forrageia em áreas mais amplas e abertas. Assim, ele está em florestas tropicais e também em bosques com clima temperado. Entretanto, não sobrevive em desertos nem em montanhas.

Então, ele está no Brasil, mais firmemente nos estado do sul. É visto também nas regiões nortistas da África e em boa parte da Europa. Há javali também na Ásia, da Sibéria à Indonésia.

O javali no físico

O javali se assemelha ao porco, só que com presas.


O organismo do javali desenvolveu adaptação que o protege de veneno de cobras. Trata-se de alteração na estrutura de certas proteínas do DNA que é encontrada apenas em mais 3 espécies de mamíferos.

Caninos do javali, a característica principal

No javali macho, há duas presas desenvolvidas para fora da boca. Aliás, os dentes como um todo crescem durante toda a vida do javali. Somente a parte visível dos caninos da mandíbula passa de 12cm de comprimento. Esses dentes são extremamente afiados.

São intensamente úteis quando se defendem de predadores ou quando disputam a atenção das fêmeas.

A estrutura

A aparência é mesmo de um porco doméstico, inclusive na posição da cabeça. Esta tem forma de triângulo e é bem grande em relação ao corpo.

As ancas do porco doméstico são muito mais largas que o tórax. Isso se deu por alteração genética constituída por criadores a fim de aumentar a quantidade de carne nessa região. Com isso, o valor de mercado do animal aumenta.

Já no javali, cujo desenvolvimento tem se dado pela própria natureza, o tórax é bem mais avantajado que as ancas. Isso confere a seu visual um certo de ar de poder, de ferocidade.

Outra diferença para com porcos doméstico é a pelagem. No porco, quase não existe mais; no javali, é abundante. É grosso e vermelho-escuro ou castanho nos adultos. Quanto aos filhotes, a natureza os camufla com pelagem cor de terra com listas mais escuras.

O organismo estrutural do javali é muito dependente do ambiente em que o indivíduo vive. Para se desenvolver, necessita de muita água e alimento.

O tamanho

Em teoria, isso seria óbvio, entretanto, há animais cujo tamanho é definido por si. Ou seja, não precisam de determinadas condições ambientais.

Assim, o javali chega a 250kg se houver alimento suficiente; no caso inverso, não passa de 50kg. Da mesma maneira, atingem até 1,80m de comprimento e 1,10m de altura nas primeiras condições e 1,30m de comprimento com 0,90m de altura nas segundas.

Os machos são bem maiores que as fêmeas e, além disso, apresentam presas desenvolvidas. Na Europa, as condições ambientais do norte oferecem mais possibilidade de crescimento que as do sul.

Membros e pescoço

Apesar de apresentar membros proporcionalmente pequenos, o javali é ótimo saltador. Pode dar saltos superiores à própria altura, com 1,40m ou 1,50m. E também corre razoavelmente bem: 40km/h.

Já o pescoço é provido de músculos tão poderosos que são capazes de cavar buracos muito fundos. E o fazem usando também os dentes expostos.

Sistema de reprodução

Quando o organismo do javali macho, então solitário, avisa que é necessário se reproduzir, seu instinto procura e o leva até um grupo matriarcal. Havendo crias machos das fêmeas, ele expulsa aqueles com mais de 12, 14 meses de vida (estes vão dar início a sua própria vida).

Havendo machos acompanhantes (veja mais acima no capítulo sobre sociedade do javali), o intruso provoca briga ferrenha. É nesse momento que aquele enchimento interno de proteção de órgãos do qual a gente falou vai mostrar sua utilidade. É nesse momento também que os caninos vão entrar em ação.

O intruso é capaz de lutar com até 3 ou 4 machos. O ganhador vai ter a preferência das fêmeas do bando. Ele vai cobrir todas. Durante pouco mais de 100 dias, elas vão ficar grávidas.

Elas vão parir de 3 a 7 leitõezinhos que vão desmamar depois de 4 meses. Porém, em 3 ou 4 semanas, já caminham ao lado de suas mães. Eles nascem meio amarelados com nuances de castanho escuro. Aos 6 meses, a cor começa a avermelhar-se e, depois, entrando na fase adulta, vai ficar mais cinzenta.

Preservação: caminho de volta

O javali esteve em momentos críticos de existência em diversas regiões da Europa. Entretanto, vários fatores contribuíram e ainda contribuem para reversão dessa situação. A diminuição da ocupação do espaço rural por parte dos humanos, por exemplo, é um desses fatores. Milhares de pessoas se deslocaram para regiões urbanas em busca de melhores condições de vida.

Assim, as áreas rural e selvagem deixaram de ser invadidas e destruídas e a caça indiscriminada diminuiu drasticamente. Dessa maneira, o javali – e outras espécies igualmente – teve seu habitat mais preservado. Isso resultou em melhores condições de sobrevivência até mesmo para recolonização de territórios por parte desse animal.

Algo semelhante aconteceu na Grã-Bretanha onde o javali tinha sido dizimado há séculos. Nos anos 1990, pequenos bandos começaram a circular vindos especialmente da Inglaterra. Eles fugiam de fazendas em busca de liberdade e espaço.

A Suécia, Dinamarca, Portugal, Itália são outros países em que o fenômeno de recuperação da espécie se intensificou certeiramente nas últimas décadas.

Sucesso na preservação do mundo; problemas para o Brasil

Com a criação da cultura da carne no javali na Europa, o conceito acabou sendo exportado para a América do Sul.

Nos fins do século passado, fazendeiros argentinos e uruguaios importaram exemplares reprodutores para seus países. Entretanto, falhas no sistema de segurança daquelas fazendas permitiram que o javali escapasse.

Foi assim que a versão híbrida – que é resultado do cruzamento do javali com o porco doméstico – se alastrou pelo Brasil na região Sul já na década de 90. Exemplares dos países vizinhos atravessaram as fronteiras e chegaram ao Rio Grande do Sul e Paraná. Ali, encontraram ambiente apropriado e parceiros de reprodução já domesticado.

Criadores passaram a se ocupar dos javalis. Por motivos diversos, porém, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente – Ibama resolveu proibir importação e criação do animal. Como resposta rebelde a tal decisão, os criadores passaram a soltar seus animais e expulsá-los de suas regiões.

Foi considerado verdadeira praga, pois o javali destruía plantações importantes, reservas ecológicas e parques públicos diversos.

Sendo espécie exótica – não natural do Brasil -, o javali não tem predador natural. Portanto, a quantidade de animais dobrou em pouco tempo. Assim, o Ibama optou por regulamentar a caça e comércio da carne de javali.

Javali e o mundo

Como se viu acima, esse porco estranho é altamente produtivo para a sobrevivência do meio ambiente. Enquanto o homem vai à frente desmatando, ele vai atrás replantando. Seu hábito de escarafunchar a terra com seu focinho e dentes tem servido silenciosamente ao sistema de replantio das florestas do mundo interno.

Não se sabe, obviamente, quantas árvores ele já plantou. Entretanto, considerando a quantidade de javalis no mundo atualmente, é possível dizer que, sem ele, estaríamos em piores lençóis.

Você não quer um javali em casa, certamente. Nem mesmo se for fazendeiro. Tendo um, vai querer que fique na pocilga, claro. De qualquer maneira, você pode ajudar todos os animais do mundo. Participe de movimentos, de discussão em redes sociais, divulgue os arquivos de nossos sites. São funcionam como catalisador de ações e iniciativas.

E, se tiver dúvidas sobre javali ou outro animal qualquer, deixe-a na área de comentários abaixo.

Por Serg Smigg

Serg Smigg é jornalista, redator, revisor e analista textual, além de roteirista e escritor. Extremo defensor das causas animais, cria seus textos apresentando conceitos claros sobre a importância desses para a humanidade e caminhos para sejam cada vez mais respeitados. A paralelo, ministra palestras inspiracionais corporativas na área de comunicação interna, externa e interpessoal social. Oferece dicas de gramática e expressividade em seu site smiggcomcorp.wordpress.com.

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