Ele é inseto. O grilo é muito conhecido por seu canto, que é chamado de cricrilar ou de chilrear. Aliás, é quase consenso que nada é mais agradável que um cair de tarde com um chilrear tranquilizador. Se você estiver deitado numa rede, no campo ou chácara, sentindo cheiro de terra molhada pela garoa amiga, é ainda melhor.

Dizem os interioranos que esse é mais um dos papéis do grilo na natureza: cantar para seres humanos ao cair das tardes. Pode até ser, mas a gente vai ver funções mais, digamos, práticas, desse inseto interessante neste artigo.

Por outro lado, há quem creia que ele leva sorte a quem o ouve. Por isso, muitos povos acabam mantendo um grilo em casa como animal de estimação. Na Ásia em geral e há alguns séculos, imperadores mantinham grilos em seus castelos como símbolo de nobreza. Eles eram mantidos até mesmo em gaiolas de ouro.

Contudo, para variar, esses simpáticos insetos estão com sérios problemas de preservação de vida. E, também para variar, o homem é o maior culpado por isso. Está ocupando espaços que antes eram do grilo. Como não voam, à semelhança de algumas poucas espécies de insetos, o grilo parece junto seus espaços.

O grilo é quase sempre confundido com gafanhotos em função do formato corporal. Entretanto, o tronco do grilo é particionado e cilíndrico.

Grilo X Humanos: uma relação antiga

O grilo possui inúmeras curiosidades e associações interessantes.


Esse inseto interessante participa da vida dos humanos há séculos. Especialmente na área cultural, como você vai observar logo abaixo. No Brasil, há comunidades inteiras que creem que a presença do grilo é sinal e bonança, principalmente se ele for verde. Já foram amuletos no Japão e na China. Segundo tradição local, esse inseto é capaz de indicar períodos de sorte. Ou azar.

Naquela mesma região, era comum que um grilo fosse aprisionado em quartos em gaiolas de bambu – ou de ouro, dependendo do status da família. Acreditava-se que seu cricrilar produzia sono tranquilo e mantinha maus espíritos do lado de fora.

Entretanto, esses insetos já foram usados em esporte agressivo, isto é, luta de grilos. Os insetos são treinados exclusivamente para atacar outros da espécie. Esse hábito ainda existe em alguns locais. Em Pequim, criam-se grilos com dieta especial; depois, ele passa alguns dias sem alimento para intensificar sua agressividade.

Então, o grilo é posto em área de combate. Em certos locais também da China, alguns grilos ganham aura de superastros em função de sua atuação no ringue e dos lucros que auferem a seus donos.

Personagem de cultura

A relação com humanos vai além do belo canto. Serve também como alimento. Países como Camboja, Vietnã, Tailândia e mais alguns consomem grilo frito naturalmente. Diz-se que é altamente nutritivo e saboroso.

O grilo é personagem constante na cultura popular tanto ocidental como oriental. Há time de beisebol, banda de rock e revistas infantis com seu nome; o personagem de filme famoso da Disney, Pinóquio, tinha um grilo “Falante”, como alter-ego; e Mulan , outro personagem de filme infantil, também tinha o seu, o Cri-kee.

Du Fu, famosíssimo romancista da dinastia Tang chinesa, relatou bela saga narrada por um grilo. Os versos são usados até a atualidade como base filosófica em diversas situações vividas por chineses.

Charles Dickens, o mais conhecido escritor inglês da era vitoriana, e George Selden Thompson, escritor americano, também usaram o grilo como elemento de suas artes em seus tempos.

Relação com a natureza

O grilo possui função importante e específica na natureza.


Assim como qualquer outro ser vivo, a relação do grilo com a natureza a sua volta tem um propósito claro. Posto que nada se perde na natureza e a natureza dispõe de inteligência intrínseca, a função do grilo é altamente producente e eficaz.

Não obstante haver espécies que, se concentradas, podem resultar em problemas para a agricultura, o grilo é importante instrumento para plantações em geral. Ao consumir quantidade enorme de matéria vegetal, seu organismo reverte a celulose em produto fecal que vai ser decomposto por bactérias e fungos.

Esse processo resulta em adubo orgânica de altíssimo valor e importância para plantas diversas. Assim, fornece substratos que aceleram crescimento e fortalecimento vegetal. Por outro lado, o grilo ataca espécies daninhas tanto animal quanto vegetal que certamente causariam muitos malefícios à plantação.

Exemplo de erva daninha preocupante é o chamado capim-colchão, que desestrutura raízes de plantas de flor e de muitas verduras. E o grilo adora essa erva; para ele, é verdadeiro manjar.

Além disso, estudos de alguns anos atrás demonstraram que grilos (e também gafanhotos) são capazes de polinizar plantas. A descoberta se deu por observação de um grilo que foi visto polinizando uma orquídea. Ou seja, ele transportou esperma vegetal contido no pólen para plantas produtoras de sementes.

O que a ciência diz sobre o grilo

Como a gente já explicou em muitos artigos aqui, Taxonomia é o braço de estudo da Biologia que identifica, classifica e registra seres vivos. E estes podem inclusive já estar extintos.

Então, o grilo está classificado no reino Animalia, filo Arthropoda, classe Insecta, ordem Orthoptera, subordem Ensifera, infraordem Gryllidae.

O grilo tem atividade noturna. Prefere caçar e agir mais durante a noite que propriamente durante o dia. Passa o dia praticamente escondido, imóvel, nas fendas de árvores ou sob folhas em geral.

Quando não encontra local adequado para ficar, escava buracos no solo ou em troncos apodrecidos e ali permanece. Para isso, usa a mandíbula para cavar e as patas para jogar o material para longe.

Mais dados sobre grilo

O tamanho dos grilos depende da espécie. Ele tem geralmente de 1 a 2 centímetros de comprimento. As espécies se apresentam nas cores marrom, preta, avermelhada, mas especialmente verde. A maioria delas tem corpo achatado e duas asas. Aliás, falando em cor, ela é usada como instrumento de defesa.

Ou seja, a cor do grilo funciona como camuflagem que o oculta da atenção de predadores. Por exemplo: as espécies que vivem em desertos tendem a ter cor pálida; já as de florestas, verde.

As duas antenas funcionam como radares para detecção de movimentos ambientais e busca por presas. Já os olhos são realmente interessantes: se constituem de dezenas de microlâminas de células oculares. Isso lhe permite visão extraordinária.

Interessante: essas microlâminas, ou microlentes, fazem que o grilo capture diversas imagens ao mesmo tempo, ainda que por ângulos diferentes. Assim, tem visão panorâmica que é muito eficiente em momentos de busca de alimento ou de fuga.

Apesar de ter asas, a maioria das espécies não voa. As asas são dobráveis, condição bastante útil quando não estão em uso. Porém, consegue pular à distância de dezenas de vezes o próprio tamanho. Isso é quase um voo, lógico. Desta maneira, consegue alcançar até 3m em pulos sem muito esforço.

Como o grilo se alimenta

Ele come tanto vegetais quanto seres vivos. Portanto, é classificado como ser onívoro. Pode comer alguns outros insetos e fungos, além plantas em geral. Porém, há espécies de grilo plenamente vegetariana.

Por outro lado, é comido por tartarugas, sapos, rãs, lagartos e mais alguns predadores naturais. O interessante é que é também consumido por seres humanos. Sim, habitantes de algumas partes do mundo têm o grilo como iguaria sofisticada e exótica.

Como ele é

A maioria das espécies é verde, como já visto. Seu corpo é dividido em três partes principais: cabeça, que apresenta as antenas, boca e olhos; tórax, onde estão as asas e as pernas; abdome, que é a parte maior e contém os sistemas digestivo e vascular e outros órgãos.

Interessante: o grilo ouve a partir de tímpanos, se é que se pode chamar assim, encontrados logo atrás dos joelhos. Ou seja, ele ouve com as pernas. Aliás, possui 6 pernas; as da frente são bem fortes.

Como nascem os grilinhos

Apesar de existirem espécies não-estridutórias (veja mais abaixo), o macho sonoriza canto especial na maioria delas. É assim que a fêmea é atraída. Assim que ela se envolve pelo canto e encanto do macho, eles “namoram” por algum tempo tocando suas antenas. Nesse período, o canto do macho é mais suave.

Depois, o macho cobre a fêmea e transfere apenas um espermatóforo (massa contendo espermatozóide) para sua genitália externa. Um espermatozoide escapa da massa e alcança o oviduto e, dependendo da espécie, isso pode demorar minutos ou horas.

Tão logo é fertilizada, a fêmea vai instintivamente ingerir a massa espermatófora restante. Entretanto, por algum motivo ainda desconhecido, o macho tenta evitar essa ação a partir de uma série de rituais. Além disso, ela também pode tentar acasalar com outros machos e, novamente, o macho que a fecundou vai tentar impedir a partir de cantos especiais.

Aliás, o comportamento multiparceiros reprodutores é comum nas fêmeas. Elas são capazes de se fecundar de diversos machos ao mesmo tempo.

A fêmea deposita os ovos normalmente no outono dos locais em que vive e, via de regra, no chão. O inverno serve como período de incubação e a primavera, de eclosão. As espécies que não põem ovos no chão dispõem de um órgão chamado ovipositor, algo como um bastão angular que leva os ovos até fendas de árvores.

Assim como alguns outros insetos, o grilo passa por alguns níveis de metamorfose:

  • Ovo
  • Ninfa
  • Adulto

Há espécies cujo ciclo de vida é de alguns meses e o de outras, de mais ou menos um ano.

Como o grilo se comporta

É inseto territorial, isto é, defenderia seus espaços com unhas e dentes, se as tivesse. E defende de forma bastante agressiva.

Um dos contendores enrosca suas antenas no outro e praticamente o imobiliza, inutilizando assim a mandíbula do oponente. Permanecem na luta até que um deles recue.

Durante a briga, ambos emitem sons completamente diferentes dos sons usados em outras situações. Assim que a vitória de um deles é confirmada, este canta o mais intensamente possível e o perdedor silencia, submisso.

Onde cricrila, o grilo

No mundo inteiro, de maneira geral, exceto em regiões com temperaturas extremamente baixas. Afinal, tem condições de sobreviver e viver em diversos tipos de habitat.

Seu cricrilar é ouvido em áreas com rochas, dentro de cavernas, nas árvores das florestas ou nas de praças públicas, nos prados, em áreas rurais. Há grilo até mesmo debaixo de solo, dependendo da espécie.

Por falar em cricrilar, somente grilo macho sonoriza – tecnicamente, essa capacidade se chama estridulação. Suas asas dispõem de área com pequenos filetes – uma espécie de pente. Quando friccionados, produzem o som característico que tanto agrada habitantes das zonas rurais. Tais sons são usados em diversas situações, sendo duas delas:

  • para atrair fêmeas durante período de reprodução
  • para avisar eventuais rivais territoriais que o grilo está na área

Cada chilreio apresenta nuances diferentes que servem justamente para expressar os objetivos do grilo.

Interessante: durante a fase de busca à fêmea para acasalar, o grilo macho emite som razoavelmente forte, estridente, que chama a atenção da pretendida. Além disso, também consegue afastar outros machos, conforme já visto. Já após o acasalamento, o som se torna mais ameno, mais tranquilo.

Isso serve para acalmar a fêmea e evitar que ela procure outro macho para acasalar. E, se outro macho se aproximar, a música se torna novamente estridente, agressiva.

Relação chilrear X temperatura

Segundo estudos feitos a partir de pesquisas intensas, há relação entre a temperatura ambiente e a quantidade de chilreios do grilo. Quanto mais alta a temperatura, maior é o número de cricrilar. As espécies têm suas próprias taxas de relação.

Assim, é comum que nativos de áreas rurais mensurem a temperatura da região a partir do cantar do grilo. Essa possibilidade tem até nome: Lei de Dolbear, identificada e publicada em 1897 por Amos Dolbear. Trata-se de uma equação matemática que produz número praticamente exato em relação à temperatura ambiente.

Assim, ruralistas experientes contam a quantidade de chilreios do grilo durante 14 ou 15 segundos. Depois, acrescenta o índice 40 ao número contado. O resultado é o grau em Fahrenheit. Isso significa que, quanto maior a quantidade de chilreios, mais quente está o clima ambiente.

Tiro no pé para o grilo e benefício para o homem

Como a gente viu, o canto do grilo é instrumento de prazer, defesa e também informativo: ele atrai fêmea para acasalamento, afasta adversários e serve como termômetro. Entretanto, sua música pode também ser um tiro no pé.

Nos anos 1975, Willian H. Cade notou que centenas de indivíduos grilos tinham larvas de Ormia ochracea. Trata-se de uma espécie de mosca amarela. Como sabem os biólogos entomólogos (especialistas em insetos), o sistema auditivo das moscas é realmente deficitário, ou seja, quase não captam sons.

Mas essa mosca ouve. E ouve muito bem, em especial o chilrear de grilos machos em fase de reprodução, pelo qual é atraída. É o único caso conhecido na natureza de uma espécie sendo atraída por estratégia de acasalamento de espécie diferente. O resultado disso é que muitas espécies de grilos deixaram de chilrear ou alteraram a forma de fazê-lo. Assim, evitam atração dos parasitas.

Entretanto – e isso é muito legal -, o fato de a Ormia ochracea ser capaz de ouvir intensificou a curiosidade dos biólogos. O que eles descobriram foi um complexíssimo microssistema auditivo embutido nos ouvidos da mosca. Uma rede complicada de neurônios transforma especificamente o chilrear do grilo em reações nervosas.

Em que isso é legal para o homem? Foi a partir de estudos desse microssistema que técnicos conseguiram criar aparelhos auditivos para surdos altamente funcionais. A tecnologia usa instrumentos de nano audição cuja descoberta só foi possível depois de análises feitas no sistema da mosca.

É a natureza oferecendo recursos para o bem-estar humano. Sempre.

Por essas e outras, proteja o grilo

Como foi visto, o comportamento do grilo auxilia muito na cultura de diversas plantas. Mesmo indiretamente, como é caso da Ormia ochracea, ele se mostra eficiente.

É certo que há situações em que não é bem-vindo, mas, na maioria dos casos, ele é excelente auxiliar da natureza. Assim, participe de movimentos de defesa de animais em geral, seja o pequeno grilo ou a enorme baleia.

E, tendo dúvidas sobre esse inseto interessante, deixe nos comentários abaixo.

Por Serg Smigg

Serg Smigg é jornalista, redator, revisor e analista textual, além de roteirista e escritor. Extremo defensor das causas animais, cria seus textos apresentando conceitos claros sobre a importância desses para a humanidade e caminhos para sejam cada vez mais respeitados. A paralelo, ministra palestras inspiracionais corporativas na área de comunicação interna, externa e interpessoal social. Oferece dicas de gramática e expressividade em seu site smiggcomcorp.wordpress.com.

Perguntas & Respostas

    1. Trsite ouvir isso – todos os animais fazem parte de um ecossistema, onde um precisa do outro. Matar esses animais, ou qlquer outro pode trazer problemas maiores. Pense nisso.

  1. Muito bom a matéria! Bem completa e clara. O que achei desnecessário foi a interação com o leitor e a ausência de imagens. Quando citou a estrutura do grilo, poderia ter uma imagem da anatomia do mesmo. Fora isso, tudo muito que perfeito!

    1. Que bom que gostou, Gustavo! Obrigado pelo seu feedback, vamos levar em consideração para melhora ro texto. Volte sempre!

  2. Olá! Gostei demais da matéria.
    Por favor, seria possível disponibilizar as referências bibliográficas utilizadas? Principalmente a da polinização. Gostaria de ler esse trabalho.

    Muito obrigado e sucesso à vocês!

  3. Amei ler essa reportagem, sempre soube e aprendi com meus pais que não podemos matar os grilos……pois tem uma relação mt importe com a natureza.
    E hj me esclareci tudo sobre esse assunto, senti que deveria pesquisar mais sobre isso qd achei um grilo aqui no meu apartamento e ” o que fazer”???
    Obrigada pela aula….e vamos repassar para as crianças assim como aprendi.

    1. Olá Maria Stela, ficamos felizes que você tenha gostado do texto. Que bom que ainda temos a felicidade de nos deparar coma lguns desses bichinhos em nossas casas, mesmo que isso tenha sido cada vez mais raro. Volte sempre!

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