Cientistas investigam porque barulhos fortes ou sons altos, como tempestade e fogos de artifício, fazem com que alguns cães fiquem irritados e com medo, oferecendo mais informações relevantes sobre as opções de tratamento eficaz disponível.

Orelhas abaixadas, tremedeiras, tentativas de se esconder debaixo da cama ou dos móveis. Este, entre muitos outros, podem ser sinais de que o seu cachorro, filhote ou adulto, está assustado.

Embora todo tutor tenha presenciado esse comportamento, uma vez ou outra, o período do verão, que coincide com datas comemorativas, festas e aumento de tempestades, tende a piorar a situação e aumentar os níveis de ansiedade dos cães.

Mas enquanto alguns cães sofrem demais com esses barulhos, outros permanecem inabaláveis ​​por qualquer estrondo. Por quê?

Para tentar desvendar esse mistério, pesquisadores de cães de todo o mundo estão investigando porque os cães reagem aos sons altos com medo. Isso porque se tivermos uma melhor compreensão dos comportamentos caninos impulsionados pelo medo poderemos melhorar a qualidade de vida deles cães e até ajudar a explicar as próprias reações humanas ao medo.

Confira!

Fogos e Trovoadas: O som do terror

Cachorros podem desenvolver medo de fogos e trovoadas por conta das frequências altas.

Os cães são conhecidos pelas suas habilidades olfativas, mas a audição também é determinante nas suas experiências com o mundo. Isso porque não é só o olfato que é poderoso nos cães. Eles são capazes de ouvir mais que o dobro de frequências que os seres humanos, além de também poderem ouvir sons cerca de quatro vezes mais longe.

Com isso, a natureza canina se encarrega de ajudar os cães a lidarem melhor com essas habilidades. Por exemplo, reagir a todos os sons captados por eles exigiria muita energia e seria também muito confuso processar tudo.

Portanto, o cérebro dos cães se programa para diferenciar quais sons são significativos e quais podem ser ignorados. Essa “flexibilidade auditiva” é especialmente importante para os cachorros que desempenham alguma atividade de trabalho.

Por exemplo, há situações em que milhares de vidas dependem da capacidade desses cães militares e de detecção de bombas permaneçam calmos, apesar de possíveis outros sons altos simultâneos e explosões acontecendo.

Da mesma forma, cães farejadores ou até mesmo cães de assistência, são ensinados a ignorar tudo a sua volta, para apenas focar no seu ofício. Seja farejar drogas ou pessoas em meio a desastres e escombros, ou acompanhar um deficiente visual nas ruas, em meio ao trânsito barulhento. Mas isso acontece através de muito treinamento e não se desenvolve da mesma forma com todas as raças de cães.

O condicionamento pode ser um fator influenciador

Por outro lado, a evolução natural acabou treinando a maioria dos animais, inclusive os cães, a evitar possíveis ameaças como forma de sobrevivência em geral, mesmo que, como no caso de fogos de artifício, a ameaça não seja real.

Isto é, do ponto de vista biológico, vale mais a pena sair correndo e fugir de um barulho estranho e desconhecido, mesmo quando não é necessário. Então, por que o cachorro tem a tendência a ficar ansioso, mesmo assim?

Bem, esse é um comportamento normal. Para alguns cães, o condicionamento precoce pode fazer toda diferença em sua sensibilidade à diferentes sons. Como os bebês, os filhotes de cachorro também passam por estágios críticos de desenvolvimento, à medida que seus cérebros formam associações que podem influenciar o comportamento deles pelo resto de suas vidas.

Por exemplo, digamos que o apartamento ao lado do seu passe por uma grande reforma, com muito barulho, marteladas, bateção de estaca e perfurações, enquanto o seu filhote estivesse em casa sozinho, sem o seu conforto para lhe dar segurança.

Facilmente, esse filhote poderá associar os barulhos com abandono – sem que você sequer soubesse do ocorrido. Assim, essa associação pode desencadear uma reação de medo no cachorro toda vez que ele ouvir um estrondo.

Os filhotes também passam por um período em que seus cérebros aprendem o que são situações normais, o que é bom e do que não precisam ter medo. Sendo que após as 12 semanas de idade, quando preferencialmente eles seriam adotados, eles começam a desenvolver suas reações ao medo.

Portanto, ao se depararem com algo novo e possivelmente traumático, depois dos três meses de idade, caso fiquem assustados eles podem aprender a ter medo disso para o resto da vida.

A genética do estresse

O temperamento genético pode ser uma fator influenciador no medo de fogos.

Mesmo os cães que têm pouca ou nenhuma associação negativa com sons altos ainda podem se assustar e se encolherem durante uma tempestade. Enquanto outros, que tiveram uma experiência assustadora quando filhotes, podem aprender através do contra-condicionamento e dessensibilização, a superar o susto.

A explicação para isso está no temperamento deles. Ao contrário da personalidade e do humor, que são estados emocionais mais fluidos, o temperamento é um sistema mais profundo e mais afetado pela genética e pelo desenvolvimento inicial.

O temperamento como fator de influência

O temperamento é moldado pela epigenética, ou pela maneira como os genes de um animal são influenciados por fatores externos. Isso pode desempenhar um papel significativo na predisposição inerente dos cães ao estresse, ansiedade e medo.

Por exemplo, estudos conduzidos em humanos e animais mostraram que as gestantes e/ou cadelas prenhas que passaram por altos níveis de estresse durante a gravidez podem transmitir uma propensão à ansiedade aos seus filhos e/ou filhotes através do hormônio do estresse cortisol.

Quando sinalizado por um evento indutor de estresse, o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) do cérebro se torna ativo e produz o hormônio cortisol. Ele cai na corrente sanguínea e percorre todo o corpo, mantendo o indivíduo em “alerta máximo”.

Portanto, níveis altos de cortisol na corrente sanguínea das mães têm efeitos negativos subsequentes nos bebês e filhotes em desenvolvimento.

O que dizem os experimentos

Em se tratando de cachorros, os cientistas mediram os níveis de cortisol nos pêlos para estudar a relação entre a resposta interna ao estresse e seus comportamentos em resposta a barulhos altos, como se esconder ou tremer.

O estudo identificou altos níveis de cortisol em cães submetidos a uma gravação de tempestade, enquanto outros que ouviram apenas latidos regulares de cães apresentarem níveis bem menores.

Esses cães com níveis mais altos de cortisol também apresentaram altos índices nos comportamentos de se esconder, fugir e buscar a atenção de seres humanos quando expostos aos sons da tempestade.

Um outro experimento mais recente com um grupo de Border Collies constatou que os cães com maiores sintomas de medo e ansiedade em relação a ruídos altos na verdade tiveram concentrações mais baixas de cortisol nos pelos.

Embora seja contraditória essa descoberta, os estudiosos levantaram a hipótese de que Talvez esses cães tenham se “desvinculado” após uma exposição crônica, levando a um estado de hipoatividade do HPA ou “exaustão vital”.

Em outras palavras, a ansiedade era tão constante nestes cães, que seus mecanismos internos passaram a não responder mais, como se estivessem acostumados àquilo ou não conseguissem mais lidar.

Outros fatores influenciadores

Um cão não precisa ser temperamentalmente amedrontado para sofrer com ruídos sonoros. Em vários estudos sobre as reações de medo à ruídos, os pesquisadores descobriram que fatores como raça, idade, sexo, status reprodutivo, período de tempo com o proprietário e exposição precoce a certos ruídos podem afetar a maneira como os cães reagem aos sons, como fogos de artifício.

Por exemplo, cães que moram com um tutor que os criaram desde filhote tiveram um risco reduzido de reações medrosas em comparação aos que tiveram um segundo ou outros tutores.

Além disso, certas raças, comparadas aos cães de raças mistas, se apresentaram mais propensas a exibir comportamentos medrosos.

O medo também aumenta com a idade nos cães, muito provavelmente por conta de dores, mas também à maneira como eles percebem o som. Os cães mais velhos, por exemplo, perdem a capacidade de detectar sons de frequência mais alta, que fornece dicas importantes de localização.

A incapacidade de localizar sons pode aumentar os níveis de estresse no cão, pois ouvir um barulho e não saber de onde vem é muito assustador para ele. Por isso, os fogos de artifício costuma ser muito assustadores para os cachorros.

Uma pessoa pode assistir a uma queima de fogos sabendo que isso não vai atingir a sua casa. Mas para o cachorro, tudo o que ele sabe é que houve um estrondo em algum local perto ali, e ele não sabe se o próximo estrondo vai acontecer mais próximo dele.

Então, qual a solução para fogos não traumatizar o animal?

A solução para tratar o medo e a ansiedade é a prevenção!

De acordo com um novo estudo divulgado na revista americana “Journal of Veterinary Behavior”, a principal tática para lidar com o medo de fogos de artifício é impedir que o medo se desenvolva.

A pesquisadora Stefanie Riemer, que estuda cães e suas emoções com o Grupo de Comportamento Animal da Universidade de Berna, na Suíça, analisou os métodos de cuidados e tratamentos de 1.225 tutores, que responderam a uma pesquisa.

A pesquisadora comparou esses métodos com uma pontuação crescente ou decrescente de medo. Riemer pediu aos donos de cães com medo de fogos de artifício que selecionassem uma série de intervenções e tratamentos e relatassem como os filhotes se saíram durante os fogos de artifício de Ano Novo.

Os métodos incluíam CDs de ruído para abafar o som, difusores de feromônio, produtos à base de plantas, produtos homeopáticos, óleos essenciais, medicamentos prescritos, treinamento para relaxamento, contra-condicionamento (treinamento para não ter medo) e o uso de coletes de pressão com efeito calmante.

Riemer descobriu que o contra-condicionamento doméstico foi uma das maneiras mais eficazes em aliviar o estresse do cão. Por exemplo, quando os fogos de artifício começaram, os donos brincaram com o cachorro, deram petiscos e expressaram emoções positivas.

Todos os cães que receberam esse contra-condicionamento tiveram 70% menos medo durante os fogos de artifício, do que os cães que não receberam o mesmo tratamento.

Contra-condicionamento é a solução!

Como vimos, podemos dizer que o contra-condicionamento, provavelmente seria a melhor indicação para tutores prevenirem o desenvolvimento do medo no cachorro, mesmo que ele ainda não demonstre medo de barulhos.

Existe um mito de que, reagindo positivamente, você reforça o medo. Mas isso não é verdade porque o medo é uma emoção, e não um comportamento. Quando uma animal apresenta uma reação de medo de fogos de artifício, o ideal seria saber identificar o tamanho desse medo.

Isso porque quando os tutores são capazes de determinar com precisão o nível de medo de cada cão, é possível trabalhar em conjunto com o veterinário para escolher o método mais eficaz de tratamento, que pode incluir medicamentos e mecanismos adicionais de enfrentamento.

Nós humanos, como em sociedade, estamos apenas começando a aceitar que os cães, como os seres humanos, também têm emoções. E parte dos cuidados com o animal significa também apoiar sua saúde emocional.

Quanto mais aprendemos sobre as complexidades dos estados emocionais deles, mais equipados estaremos para mantê-los felizes.

Por Equipe Editorial

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