Novas evidências e muita pesquisa mostram que algumas raças de cachorro, antes consideradas agressivas, hoje passam por extraordinárias mudanças de temperamento e personalidade. Assim, sugerindo um olhar mais atento aos antigos estereótipos e preconceitos. É o caso do tão destemido cachorro Pitbull, que tem derrubado barreiras e conquistando o coração de muita gente.

O cachorro Pitbull no passado

Cachorro Pitbull: Pit Bull Terrier Americano vermelho deitado.

Cachorro Pitbull: Pit Bull Terrier Americano vermelho deitado. (Crédito/Copyright: “david156/Shutterstock”)

Em um passado nem tão distante, o jornal Irlandês Examiner chamou Rottweilers de “bombas-relógio de pernas”. A Côrte Suprema de Kansas, nos Estados Unidos sentenciou o cachorro Pitbull como “um perigo para a saúde pública.” Raças de cachorro como Buldogue inglês, Dogo Argentino e Bull Terrier já foram consideradas raças agressivas. Além disso, até apelidadas de “raças Bully” ou cães de briga.

Tanto é verdade que, em alguns países raças como essas já foram banidas e até proibidas de se reproduzirem. Países como a Inglaterra e alguns estados nos Esatos Unidos, por exemplo, consideram muitas dessas raças “perigosas e agressivas”. E a maioria delas possui várias restrições.

No entanto, uma afirmação nem sempre pode ser considerada uma verdade absoluta para todas as espécies e ocasiões. Muitas vezes, algumas raças de cachorro acabam sendo vítimas de preconceito e ignorância da sociedade.

Todo cachorro possui características individuais

Não podemos esquecer que cada cachorro é um indivíduo e possui características individuais, mesmo pertencendo à mesma raça. Até mesmo uma mesma ninhada pode trazer filhotes com características definidas e bem diferentes entre si. Além disso, a forma como o cachorro é criado e o seu ambiente também são importantes. Sendo que até influenciam diretamente no temperamento e no comportamento do cachorro.

No entanto, muitos fatos sobre o cachorro Pitbull são verdadeiros. Como por exemplo, no passado a raça ter sido desenvolvida para “Rinhas de cães”. Só isso lhe rendeu a reputação de “cão assassino” de proporções catastróficas. Sim, o cachorro Pitbull é um animal de construção robusta, de força insuperável e alta tolerância à dor. Tudo isso faz dele um excelente lutador, mas não necessariamente assassino.

No entanto, depois que o maldito esporte foi banido, o cachorro Pitbull teve que encontrar uma outra finalidade para a sua existência. Muitos criadores se empenharam bastante para mudar esta imagem negativa da raça Pitbull.

Para tanto, novas reproduções e estudos genéticos foram feitos. O intuito foi sempre reverter e amenizar essa tendência agressiva propositalmente exaltada na raça. Com isso, muitos avanços foram conquistados, e hoje o cachorro Pitbull não é mais a mesma ameaça.

Estudos sobre agressividade comprovam

Cachorro Pitbull: Pit Bull Americano tigrado na fazenda.

Cachorro Pitbull: Pit Bull Americano tigrado na fazenda. (Crédito/Copyright: “/Shutterstock”)

A website, Dognition, coleta dados sobre comportamento canino de diversos assinantes através de jogos desenvolvidos para testar a cognição de seus animais de estimação. Recentemente, uma quantidade aleatória de pessoas responderam a testes sobre o grau de agressividade e tendências agressivas de seus cães em inúmeras situações diferentes.

Como por exemplo, comportamentos agressivos em relação à pessoas estranhas ou familiares; crianças conhecidas ou desconhecidas; e outros cães de dentro ou fora do convívio. Foram adicionados aos testes 35 diferentes raças de cachorro de portes variados.

Mais de 4.000 donos de cães responderam aos questionários. E, por mais incrível que pareça, em quase todos os quesitos, os Chihuahuas foram classificados como os mais agressivos. Especialmente com relação à cães maiores e desconhecidos. Dá pra acreditar?

Nenhuma das raças que participaram do questionário era particularmente agressiva. Chihuahuas se destacaram como “moderadamente agressivos” em alguns quesitos, mas na maior parte das questões foram classificados como “ocasionalmente agressivo”.

O destaque chamou atenção porque a maior parte das raças estudadas — como Pugs, Collies e King Charles Cavalier Spaniels — classificaram-se como “raramente agressivos” ou “nunca agressivos”.

No entanto, a grande surpresa ficou por conta da raça de cachorro Pitbull Terrier Americano, sempre tida como altamente agressiva. Para a surpresa de todos, a raça Pitbull classificou-se consistentemente como uma das menos agressivas, com exceção à cães desconhecidos. Mesmo assim, o Pitbull ainda ficou abaixo dos Schnauzers Miniatura.

Pitbulls não merecem a má reputação

Cachorro Pitbull: Pit Bull americano albino ou Pitbull red nose

Cachorro Pitbull: Pit Bull americano albino ou Pitbull red nose. (Crédito/Copyright: “Dapixstudio/Shutterstock”)

Brian Hare, professor assistente de antropologia evolutiva, e Vanessa Woods, escritora e pesquisadora, ambos da Universidade de Duke, são os cérebros por trás da Dognition. Além disso, ambos são os autores do livro “Seu cachorro é um gênio!” (título original: “The Genius of Dogs: How Dogs Are Smarter Than You Think”).

Os especialistas afirmam que o cachorro Pitbull não merece toda a má reputação que gira em torno da raça. No entanto, ambos concordam que existem algumas razões para este resultado com relação aos Pitbulls.

Ou os seus donos foram complacentes com seus cachorros em nome do amor que sentem por eles. Ou, talvez eles sabendo que os cachorros poderiam ser agressivos, optaram por não dizer para não reforçar a ideia de uma maioria que acredita que a raça seja agressiva. Ou simplesmente, não quiseram dar o braço a torcer.

Mesmo assim, os autores afirmam que as respostas estão de acordo com a Sociedade Americana de Testes de Temperamento (American Temperament Test Society), uma instituição americana que estuda e realiza testes de temperamentos em cães. Ou seja, a instituição também descobriu através de testes que o cachorro Pitbull Terrier Americano está entre as raças de cachorro mais tolerantes.

O problema está na disseminação do preconceito

Cachorro Pitbull: Pit Bull americano branco e preto deitado na grama

Cachorro Pitbull: Pit Bull americano branco e preto deitado na grama. (Crédito/Copyright: “JONATHAN PLEDGER/Shutterstock”)

Segundo Hare e Woods, o problema está nas pessoas darem ouvidos a muita gente por aí que afirma que cachorro Pitbull é agressivo. Por isso, quando pessoas relatam acidentes com mordidas de cachorros, já outras logo assumem que a mordida veio de um cachorro Pitbull.

Sendo que na verdade, a maioria das pessoas nem sabe se o cachorro era mesmo da raça Pitbull. Ou seja, as pessoas não sabem diferenciar e nem identificar a raça Pitbull entre outras, mas logo vão dando o crédito ao coitado do cachorro.

Legislações específicas sem identifcação correta

Cachorros são animais carnívoros, e às vezes, quando se sentem ameaçados, mordem. Segundos dados estatísticos, mais de 300.000 americanos dão entrada em emergências de hospitais por causa de mordidas de cachorros todo ano. Sendo que uma média de 25% dessas pessoas morrem por causa destas lesões.

Em resposta, desde 1980, mais de 900 cidades americanas decretaram legislações para raças de cachorro específicas com várias restrições. Como por exemplo, usar focinheira em público, castração, banimento e até eutanásia. Embora outras raças de cachorro, como Rottweilers, Chow Chows e até Chihuahuas são ocasionalmente incluídas, quase todas essas legislações são voltadas para os cachorros da raça Pitbull.

Isto é, no mínimo, problemático já que há evidências que não só sugerem que o Pitbull não é o mais agressivo em relação às pessoas, como também poucas pessoas sabem de fato diferenciar Pitbulls de outras raças semelhantes.

American Staffordshire Terriers, Staffordshire Bull Terriers, Pitbull Terrier Americanos, e misturas de qualquer dessas raças podem todas ser confundidas com o Pitbull. Sendo que até aqueles que estão familiarizados com a raça Pitbull podem ter problemas em identificá-los.

A identificação incorreta da raça contribui para o preconceito

Cachorro Pitbull: Pit Bull americano tigrado deitado na areia da praia.

Cachorro Pitbull: Pit Bull americano tigrado deitado na areia da praia. (Crédito/Copyright: “Looker_Studio/Shutterstock”)

Só para se ter uma ideia, em vários estudos recentes, funcionários de abrigos identificaram incorretamente raças caninas 50% a 87% do tempo. Isto é, testes de DNA identificaram a raça dominante de um cachorro como Dálmata, sendo que os funcionários o haviam identificado como um cão Terrier. Outro teste identificou um cachorro em sua maior parte como Malamute do Alasca, sendo que os mesmos funcionários o haviam identificado como um Pastor Australiano.

Portanto, quando um hospital registra que um Pitbull mordeu um paciente, os registros apenas se concentram no relato da vítima, parentes ou testemunhas. Ou seja, ninguém faz um teste de DNA para ter certeza se foi mesmo essa raça a autora da mordida. Na maioria dos casos, nem sequer o cachorro é apreendido para comprovar. Por esta razão, não se deve confiar apenas em relatos.

A mídia tem sua parcela de culpa

Cachorro Pitbull: Pit Bull americano branco e preto

Cachorro Pitbull: Pit Bull americano branco e preto. (Crédito/Copyright: “Mario Dias/Shutterstock”)

Noticiários e outras mídias que relatam eventuais ataques tendem a encorajar ainda mais estas identificações equivocadas. Por exemplo, em 2008 um ataque de Pitbull hospitalizou uma mulher e gerou 230 artigos e reportagens em noticiários nacionais e internacionais.

Poucos dias antes, um cão sem raça definida (vira-latas) havia atacado e matado uma criança de 16 meses. O noticiário local reportou o fato apenas duas vezes. Ou seja, o cachorro Pitbull acaba recebendo muito mais atenção por ser uma raça tida como violenta.

E o fato de ser uma notícia polêmica acaba gerando uma ibope. Isto é, notícias que possuem a raça Pitbull como protagonista são mais rentáveis e portanto, acabam ganhando muito mais destaque do que outras com outro tipo de cachorro.

Legislação específica não é o caminho

Cachorro Pitbull: Pit Bull Americano bicolor - branco com castanho.

Cachorro Pitbull: Pit Bull Americano bicolor – branco com castanho. (Crédito/Copyright: “Yurlick/Shutterstock”)

Quase toda organização humanitária, desde a Sociedade Humana à administração Obama, se opõe à legislação para raça específica. Simplesmente, devido às evidências concretas de que não funciona.

Por exemplo, depois de banir Pitbulls em 1984 e eutanasiar milhares de animais, a cidade de Denver, capital do Colorado nos Estados Unidos, possui mais pessoas hospitalizadas por mordidas de cachorro que qualquer outro lugar do estado. Como pode? Mas não eram os cachorros Pitbulls os responsáveis?

Antes de passar leis como estas, pesquisadores que estudam o comportamento animal estão tentando entender a razão pela qual os cachorros mordem, e as interações que facilitam esses ataques. Além disso, testes genéticos mais eficazes e precisos estão sendo desenvolvidos e executados para identificar o cachorro corretamente. Como por exemplo, o Embark, que através da coleta rápida de saliva na bochecha do carro permite identificar o animal de forma precisa.

Ou seja, talvez no futuro a genética por trás da agressão será entendida o suficiente para advertir as pessoas antes que o cão morda alguém. Enquanto isso, não seria correto condenar uma raça inteira de cachorro por agressão apenas pela reputação ou aparência. Afinal, não fazemos o mesmo apenas olhando para os seres humanos, fazemos? Rs!

Para saber mais sobre isso, acesse os links externos abaixo:

The Atlantic PitBull são mais calmos que Chihuahuas
NYMagPit Bulls podem ser incrivelmente calmos
Revista ExamePitbull são mais bonzinhos que Chihuahuas