Muitas pessoas se perguntam “que raios está fazendo aquele camelo em terras americanas”? Bem, essa é uma longa história. E, para você assimilar um pouco das curiosidades que envolvem a vida desse animal, a gente começa este artigo com um resumo dela.

Em meados do anos 1800, o sudoeste dos EUA estava em franca expansão comercial. Seria boa ideia se a região dispusesse de camelo para transporte de carga – afinal, ele carrega muito mais peso que cavalos.

Ainda, um camelo seria bom “carteiro”, pois atravessaria desertos sem necessidade muita água ou comida. A grande ideia foi de Henry Wayne, subchefe do Departamento de Guerra americano.

O Senado americano considerou a sugestão uma ideia de jerico – se nos permitem o trocadilho – e rejeitou-a, mas a imprensa local acabou assimilando-a, sabe-e lá por que cargas d’água. Anos depois, pouco mais de 7 dezenas de camelos já estavam levando suprimentos pela paisagem da região.

O que parecia grande ideia mostrou-se em realidade fracasso total. Camelo tem manias que não foram consideradas no grande plano estratégico. Gosta de assustar outros animais de seu porte, como cavalos; caminha muito durante a noite, o que irritava os soldados; as fezes eram um tormento. A região suportou a presença dos animais até somente a Guerra Civil, poucos anos depois. Então, acabaram sendo leiloados ou mesmo esquecidos no deserto do Arizona.

A Lenda do Camelo Vermelho

Há muitas lendas atribuídas ao camelo.


E isso deu origem a uma série de lendas, mitos, imaginação, invenções. Uma delas trata de um certo camelo vermelho. Diz-se que uma mulher foi morta a pisões; posteriormente, um grande camelo invadiu a tenda de dois garotos e quase os matou; ainda, um fazendeiro teria atirado num camelo em suas terras e isso bastou para criminalizar o comportamento do animal.

Em todos os casos, foram encontrados tufos de pelos vermelhos, que deram nome popular ao animal: o camelo vermelho assassino. Relatos diziam que ele parecia carregar pessoas mortas no dorso. Certamente essa impressão nasceu do desconhecimento por parte muitas pessoas em relação às corcovas.

Essa e outras lendas mostram o quanto o camelo está muito envolvido no imaginário popular. Ele foi verdadeira base para desenvolvimento do comércio nas regiões desérticas. E ainda o é até hoje.

Agora, conheça neste artigo os detalhes que fazem desse animal um verdadeiro poço de curiosidades.

Camelo e sua história

Assim que você ouve a palavra camelo, logo sua cabeça está cheia de imagens de horizontes desérticos, árabes com seus turbantes, sol escaldante, falta de água etc. Não é bem assim. Isto é, pelo menos em relação aos árabes.

Pesquisadores e zoólogos em geral sustentam que o camelo não tem origem como animal árabe. O camelo ainda é grande auxiliar no cotidiano desse povo, é essencial em algumas situações. Mas não é árabe.

Paleontólogos descobriram uma série de fósseis que indica origem em território que hoje é conhecido como as américas. Isso foi nos períodos anteriores à domesticação, quando ainda ele ainda convivia com seu parente mais próximo, a lhama.

Há indícios fósseis encontrados também na Caxemira, Índia, Argélia e outros da região. É muito provável que o camelo árabe tenha vindo desses territórios e do norte africano. E isso pode ter acontecido já na Idade da Pedra.

Duas esculturas desenterradas próximo à Jordânia são nítidas como representação de camelos. Ao fundo da cena esculpida, há imagens claras desses animais que hoje existem nas regiões árabes.

Interessante: Estudos fósseis mostram que há 50 milhões de anos, ainda na era Eoceno, os camelos tinham o tamanho de um coelho adulto atual. Posteriormente, se desenvolveram e atingiram o tamanho de uma cabra e já se parecia muito mais com o visual de hoje. O pescoço começou a ganhar comprimento alguns milhares de anos depois, no período Mioceno.

Domesticação do camelo

O camelo foi domesticado como o cavalo.


Um camelo está identificado numa imagem encontrada há 3 mil anos antes da era cristã, no Iraque, na região de Halaf Alto. Nela, há um homem montado entre suas corcovas, o que indica que o animal já estava interagindo com o humano naquela época.

Outras pequenas figuras de 2500 anos antes de Cristo também representam camelos. Foram encontradas no Líbano, nos arredores de Byblos.

Há pesquisadores que acreditam que o camelo foi introduzido na rotina humana ainda no norte da África. Posteriormente, ainda segundo indícios pesquisados, Abraão teria levado alguns exemplares do Egito para as regiões árabes já domesticados. Entretanto, tudo parece mais resultado de especulações que propriamente análise de situações.

O camelo também é mencionado em diversas passagens bíblicas. Já em Gênesis 12:16, 24:10-11, 30:43; 31:3 e 37:25 com Abraão e José. Depois, em Juízes 7:12, 8:21 e 8:26. Diversos outros trechos do Livro Sagrado trazem menção a camelo, como fatos da vida dos rubenitas e gaditas, da rainha de Sabá, Jó etc.

Conhecendo melhor o camelo

O camelo é um mamífero ungulado que apresenta cascos nas patas.


São mamíferos ungulados, isto é, apresentam cascos nas patas. Estas são realmente largas, o que as torna apropriadas para longas caminhadas sobre areia solta. Com pernas finas e longas (veja mais no capítulo “Estrutura Física”), os movimentos são mais coordenados e facilitados. Seu organismo é dotado de grande capacidade para acumular água, o que possibilita que fique vários dias sem beber. Mas isso ocorre em todo o organismo, não somente nas corcundas ou no estômago, como pensa a maioria das pessoas.

Além de tudo, suas mandíbulas e a carne dura da boca permitem que triture arbustos praticamente intragáveis. Até mesmo mamíferos com hábitos de pastagem em ambiente inóspito recusam certas plantas que o camelo ingere. Quando com sede, é possível que consuma pouco menos de 100l de água.

Camelo não bebe muita água

Essa é uma das impressões mais injustas para com a realidade do camelo. Ele pode ficar sem água, mas não é o caso de não beber ou preferir não beber. O organismo do animal reage de maneiras das mais diferentes.

Os olhos começam a lacrimejar constantemente e suas corcovas ficam flácidas, pois o organismo busca energia como e onde puder. Se não conseguir fonte de água, a urina do animal se torna espessa e ele apresenta problemas renais intensos. Vai perdendo peso – se a situação não se alterar, perde peso até a morte.

Além disso, ele deixa de se alimentar normalmente.

Interessante: camelo pode ficar até 50 dias sem água nos meses de inverno. Isso pode até ser verdade, mas não significa que o animal queira. Se pudesse, beberia água todos os dias, seja no inverno ou verão. Em verdade, ele retira o líquido de determinadas plantas que germinam mais em época fria.

Quanto ao verão, é capaz de passar até 5 dias sem água. Esse tempo é menor justamente porque há menor oferta daquelas plantas e o consumo de água corporal é mais intenso. Essa situação é observada quando o camelo encontra água após muitos dias sem beber. O desespero do animal é tanto que é até possível matar ou morrer pelo líquido.

Mais enganos quanto ao camelo

Quando se conhecia menos sobre o camelo que atualmente, pesquisadores achavam que o estômago do animal era especial. Julgavam que seu organismo conseguia separar líquido de sólido, o que permitia permanecer tanto tempo sem água.

Posteriormente, soube-se que o camelo dispõe de 3 estômagos, dois dos quais podem ser especialmente para água. A comida, então, passa direto para o terceiro compartimento, onde é digerida.

Ele regula a temperatura corporal

Pesquisas sérias apoiadas por experiências confirmam que o camelo não transpira de maneira semelhante a outros mamíferos. Ele retém o calor e, consequentemente, a umidade corporal. Isso explica parte da capacidade de ficar tanto tempo sem água.

Além disso, sua corcova também pode reter material hidrogenado juntamente com gordura e outros nutrientes. É outra boa parte da explicação do não consumo de água.

Assim, suporta variações intensas que destruiriam o organismo de qualquer outro animal. Pelas manhãs, o corpo baixa para 33 C e, à noite, aumenta para 40 C.

Sem água. Mas sem comida também?

O camelo parece apresentar uma relação realmente diferente com processo de manutenção orgânica. Além de conseguir ficar sem água, ele demonstra certa indiferença até mesmo com comida sólida. Não dispõe de instinto de luta e de procura por alimento.

Quando saciado, não raramente seu dono precisa lembrar a ele que precisa comer nos dias seguintes. Afinal, ele não retorna para o pasto ou cocho. Segundo especialistas, a visão e o olfato do camelo não contemplam grande potencial. Ou seja, pode passar muito perto de cocho e não captar o cheiro da comida.

Com isso, o sentido geográfico também é deficitário. Um camelo perdido permanece caminhando em linha razoavelmente reta até que seu dono o encontre. Então, é levado de volta à caravana.

Estrutura física do camelo

A expectativa de vida desse animal é por volta de 50 anos. Com pouco menos de 2m de altura (da pata às corcovas) e capaz de atingir até 70km/h quando necessário, mantém ritmo de velocidade de 40km/h durante muito tempo.

Uma série de acomodações orgânicas e estruturais faz do camelo o melhor animal para enfrentar os mais diversos tipos de ambientes. Por exemplo: o grande comprimento das pernas não é por acaso. É assim que a natureza mantém seu corpo o mais distante possível do solo quente, que pode chegar a 70 C.

Seus globos oculares, por exemplo, são ovais. Isso facilita distribuição de glóbulos vermelhos do sangue. Além do mais, ele dispõe de uma terceira pálpebra que protege os olhos durante tempestade de areia.

Aliás, ele consegue tapar as narinas por muitos minutos enquanto caminha sob chuva de areia. Nada mais propício para o chamado “Navio do Deserto”.

A gordura corporal é bem distribuída de maneira que os movimentos na areia sejam equilibrados e certeiros.

“Sessão” acasalamento

O camelo macho tem uma curiosidade quando quer atrair uma fêmea. Há uma espécie de bolsa na boca que ele infla e a expõe. Dependendo do tamanho e aparência, a fêmea se sente confortável ou não para se aproximar.

Então, ela dobra as 4 patas e permanece sentada. O macho a cobre por trás, também sentado sobre ela. Aliás, a posição sentada é característica do camelo. É o único animal que acasala nessa situação.

Acrobacias do camelo

Um hábito aparentemente estranho desse animal intrigou – ainda intriga – muitos biólogos. O que falta de instinto no tocante a comida, como visto acima, sobra no instinto de encontrar uma área específica para deitar e rolar literalmente.

Durante caminhadas, de repente, o animal começa a fungar sobre o chão; se for uma caravana, mais animais vão repetir o gesto. Então, assim que identificam o local, ajoelham-se, deitam-se e começam a rolar na areia quente.

Apesar de cientistas não terem certeza sobre o objetivo do gesto, donos experientes de camelo dizem que isso serve para refrescar todo o corpo do animal. Já pesquisadores alegam que pode ser uma espécie de massagem que estimula a circulação sanguínea sob o sol escaldante.

Relação do “navio do deserto” com os humanos

O camelo sempre serviu a muitas necessidades.


Como visto acima, o camelo foi domesticado há milênios. Assim, sua estrutura tem servido a muitas necessidades, de transporte à oferta de leite. Sua carne também pode ser consumida em momentos de escassez de alimento; sua pele, como proteção para o frio.

Não apenas povos do deserto, mas também os rurais e urbanos consomem leite de camela. Ele concentra muito mais vitamina C, gordura saudável e proteínas que as bovinas. Veja mais na capítulo de “Absurdos” abaixo.

A pele do animal alimenta a indústria de fibras têxteis e, como já visto, sua força incomum funciona como meio de transporte eficiente nos ambientes hostis dos desertos. Aliás, é por isso que seu apelido no meio popular é Navio do Deserto. É capaz de transportar até 300kg de carga durante trajetórias longa.

Raças de camelos

Os zoólogos separam os camelos em dois grandes grupos.

Bactriano

É a raça de camelo mais conhecida, pois têm duas corcovas. No meio biológico, seu nome é Camelus bactrianus. Seu pelo tem cor caramelada, amarronzada. Entretanto, atualmente, há muitos indivíduos com pelo preto e até mesmo branco. Essa raça pode pesar até 1 tonelada.

Árabe

É mais conhecido como dromedário. Aliás, o nome científico é justamente Camelus dromedarius. Está mais presente, claro, nas regiões árabes. Pode ter até 600kg de peso.

Por outro lado, os povos árabes nômades do deserto separam os dromedários em dois tipos: puro-sangue e comum. Os primeiros são mais valorizados, pois detêm algo semelhante a pedigri nobre. São descendentes de regiões específicas, criadoras milenares de camelos.

Certa lenda beduína garante que os puros-sangues são gerações originadas em apenas uma fêmea especial que, creem muitos, foi fecundada por um touro selvagem. Crenças à parte, os biólogos descobriram que a linhagem nasceu de criadores cuidadosos que conseguiram exemplares fortes e velozes.

Tal linhagem se destinou a uso dos animais em tempos de guerra. Assim, ajudaram muito os árabes nas conquistas sobre os gregos e persas. Eles se espalharam pela região a partir do Qatar, do Omã e Mahra.

Interessante: uma fêmea que prenhe de macho bactriano – ou seja, dromedário fêmea com camelo comum – vai gerar filhotes com duas lombadas (corcovas), mas unidas sob a pele e carne. É até possível identificar as duas, mas não são bem aparentes.

Alguns absurdos referentes ao camelo

  • Diz-se que determinados grupos de beduínos fazem orifício na barriga de seus camelos para retirar água e saciar a própria sede em tempos de escassez premente
  • Beduínos cantam enquanto seus camelos bebem água. Acreditam que isso os faz beber ainda mais e, assim, passar ainda mais tempo sem o líquido
  • Em tempos de secura quase total, os beduínos usam o leite da fêmeas de camelo para matar a sede. Assim, eles as cruzam para que estas se tornem lactantes. Tão logo o filhote nasça, ele é morto; sua carne é consumida e a fêmea é ordenhada constantemente para produzir mais leite. Com a morte do filhote, sobra mais para os humanos
  • As fêmeas parturientes choram eventual perda de seu filhote. Assim, os donos retiram as vísceras do animalzinho e substituem por palha. Mantêm-no próximo à mãe para que ela continue ofertando leite e não altere o comportamento
  • A turquia ainda promove uma atividade milenar contra a qual ativistas em defesa de animais lutam desesperadamente. Trata-se de sessões de ferrenhas luta de camelos

Muito mais sobre camelo

A vida do camelo é plena de detalhes e curiosidades que encheriam uma prateleira de biblioteca. Certamente, é impossível mencionar tudo sobre ele, quer seja em questões biológicas, comportamentais ou históricas. Assim, se você tiver mais dúvidas sobre esse animal fantástico, envie mensagem para nossas equipes de pesquisadores e veterinários ou deixe a área de comentários abaixo.

Por Serg Smigg

Serg Smigg é jornalista, redator, revisor e analista textual, além de roteirista e escritor. Extremo defensor das causas animais, cria seus textos apresentando conceitos claros sobre a importância desses para a humanidade e caminhos para sejam cada vez mais respeitados. A paralelo, ministra palestras inspiracionais corporativas na área de comunicação interna, externa e interpessoal social. Oferece dicas de gramática e expressividade em seu site smiggcomcorp.wordpress.com.

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