É verdade que crianças possuem uma relação especial com os cães, não importa o tamanho deles. Elas puxam o rabo deles, passam a mão na direção contrária dos pêlos, sentam em cima deles, os agarram pelo pescoço e rolam com eles no chão. A grande maioria dos cachorros toleram todo esse abuso pacientemente e muitos ainda chegam a implorar por mais quando toda essa atenção e demonstração de carinho acaba.

É um contraste gritante quando comparamos este comportamento com o que cães costumam resistir de si mesmos ou de seus donos adultos. Então, o que faz o “melhor amigo” do homem ser tão tolerante com as crianças em particular? O que faz com que estes caninos permaneçam calmos diante destas mini pestinhas?

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Menino e seu cão de guarda (raça desconhecida) (Crédito/Copyright: “Selins/Shutterstock”)

Para entender a relação dos cachorros com as crianças, temos primeiro que pensar um pouco sobre a estrutura social deles, digo dos cachorros. Na natureza, cães precisam se esforçar demais para estabelecer e reforçar seus lugares em seu bando, e estas posições claramente ditam quem manda e quem está subordinado recebendo ordens. Entre os cães criados como animais de estimação, a hierarquia é bastante simples (aquele que o alimenta pode mandar). E em um ambiente familiar não é diferente — pelo menos na perspectiva do cachorro.

Quando são trazidos para dentro do núcleo familiar, os cachorros reconhecem imediatamente a família como o próprio bando. Assim, cães também possuem um senso claro de quem é a sua família. Uma vez que a pessoa se torna “um deles”, ela será defendida a qualquer custo, quer ela coloque a comida no prato ou não. Cães sabem bem quem são da família e não hesitarão em se colocar à frente de algum perigo para proteger uma dessas pessoas.

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Bebê brincando com um Labrador Retriever (Crédito/Copyright: “Monkey Business Images/Shutterstock”)

A diferença entre os adultos e as crianças é que as crianças possuem um lugar especial dentro dessa hierarquia familiar, e o cachorro é capaz de perceber isso. Ele percebe que, como ele, as crianças não estão no topo da hierarquia familiar. Com isso, o cão sabe que crianças são indefesas, e as enxergam como se fossem seus próprios filhotes, que precisam ser protegidas, por isso não as consideram ameaças para a sua territorialidade ou como algum tipo de disputa. Eles são capazes de obedecê-las e tolerá-las, porque mesmo que abaixo dos adultos nesta hierarquia familiar, as crianças estão acima deles e são vistas como parte integrante do seu “bando” que chamamos de família.

De fato, a maioria dos cães possuem um instinto tão forte de proteção com relação a quem eles amam que quantidade alguma de socialização irá diminuir. Por outro lado, um instinto protetor tão forte pode até causar agressão desnecessária com relação à pessoas de fora deste círculo familiar. Por esta razão, o instinto de guarda deve ser afinado através de socialização frequênte e desde o início, além de treinamento regular. Sem isso, um protetor zeloso pode virar um perigo para crianças e até adultos da família.

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Menina beijando um Labrador Retriever (Crédito/Copyright: “Elena Nasledova/Shutterstock”)

Algumas raças são melhores cães de guarda que outras. Raças preguiçosas e muito amigáveis podem não ser tão responsivas a situações perigosas em potencial quanto raças mais atentas e desconfiadas. Raças como o Cão Bernese da Montanha e Terra Nova estão entre as raças mais amigáveis com crianças e possuem um bom instinto protetor em relação a elas, talvez por conta de suas criações como cães de salvamento. E claro, nem todo mundo teria coragem de se aproximar de uma criança acompanhada por cães desse tamanho.

Outras variedades de cachorros foram criadas com certas características protetoras. Por exemplo, um cão pastor, como o Border Collie ou Pastor Alemão, sabe como manter o seu bando junto, não importa o que aconteça. Tais raças são menos prováveis de permitir que uma criança fuja, se afaste, ou seja levada por alguma pessoa estranha, mas nem todas as raças pastoras são agressivas o suficiente para espantar invasores. Animais criados para serem cães de colo, no entanto, podem não ter energia ou inclinação para intervir em situações como essas.

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Shar pei abraçado a crianças no sofá (Crédito/Copyright: “Alena Ozerova/Shutterstock”)

Raça nem sempre é tão importante quanto adotar ou comprar um cachorro de criadores que focam no bom temperamento de seus cachorros. Um cão que apresenta sinais de ansiedade e medo não é uma escolha ideal de cão de guarda para a família já que estes animais estão mais suscetíveis a surtar ou atacar sem motivo. Até entre raças que são consideradas melhores cães de guarda, a falta de treinamento pode alterar dramaticamente o temperamento individual do cachorro.

As raças mais independentes, como o Akita, podem não ter a paciência e limitação necessária para ser um bom cão de guarda. Para tal tarefa, será necessário um animal que você possa controlar, principalmente se ele ficará responsável pela segurança dos seus filhos ou da sua casa. A chave para um cachorro saber como proteger uma criança ou um ente da família ainda é socialização frequênte desde o início da convivência entre todos na casa, além de treinamento, especialmente de obediência. Não precisa ser nenhum treinamento especializado; o típico treinamento comportamental de “bom cachorro” é tudo o que ele precisa para se tornar um cão de guarda eficaz, e os seus instintos naturais cuidarão do resto.