Normalmente, quando se ouve falar em cabra, uma das primeiras coisas que se pensa é em situações engraçadas, piadinhas etc. O próprio termo “cabra” já leva a gente a pensar em circunstâncias cômicas. “Cabra da peste”, “cabra da moléstia”, “cabra-macho”, etc. sempre invocam brincadeiras em outras regiões do país que não seja o Nordeste.

Lá, no Nordeste, o termo pode ser considerado um elogio: homem forte, corajoso, destemido. Isso se dá porque o leite da fêmea é tido como mais nutritivo que o da vaca. Ou, então, um xingamento: sem vergonha, larápio etc. E isso se dá porque o animal é “amigo do Diabo”, segundo crença popular de algumas áreas do Nordeste.

Aliás, o uso da palavra “cabra” para se referir ao homem deu-se no tempo na colonização. Os nativos do Nordeste tinham hábito de mastigar uma planta, o bétel. Ou seja, pareciam estar sempre ruminando, como as cabras. Os portugueses da época, com toda sua soberba e empáfia e querendo humilhar os nativos, passaram a chamá-los de cabra.

“peste” e “moléstia” são associados a doenças terríveis. O nordestino tem hábito de chamar de peste ou moléstia as doenças perigosas que afligem a região. Nesse caso, ao usar “cabra da peste” como ofensa, esta é reforçada com ligação a doenças ruins.

Onde encontramos a cabra?

A cabra é um animal que pode sobreviver em tudo quanto é região, inclusive adversas.


É quase certo que você ache que ela está somente no Brasil. Entretanto, a espécie está espalhada em metade do globo terrestre, especialmente a espécie doméstica.

Basta um bom campo aberto, ainda que rochoso, com grama suficiente e lá estão elas. Aliás, há comunidades enormes que consomem mais leite de cabra que leite de qualquer outro animal. Aliás, o leite dela é terceiro produto lácteo mais consumido no mundo, atrás apenas do leite de vaca e de búfala.

Por outro lado, sua carne é oferecida em restaurantes do mundo inteiro. Alguns deles produzem pratos ditos sofisticados, exóticos, que agradam a paladares dos mais exigentes.

Então, você sabe quais são os gêneros gramaticais de cabra? Seria “cabra e cabra fêmea”? Ou “cabra e bode”? E qual é a diferença em cabra e cabrito?

Aspectos histórico-biológicos da cabra

A cabra foi um dos primeiros animais a serem domesticados.


A importância desse animal para a humanidade se dá porque ele foi um dos primeiros a ser domesticados. Dessa maneira, é animal bastante procurado atualmente por fazendeiros e sitiantes iniciantes que tencionam comercializar a criação.

A cabra convive com humanos em relacionamento de colaboratividade há mais de 9 mil anos. Há estudos que indicam a Capra sivalencis e a Capra perimensis sejam os dois braços biológicos ancestrais. Entretanto, estas são conhecidas apenas a partir de fósseis, pois, claro, já estão extintas.

E, ainda, outros estudos mostram os ancestrais vivos da maioria das raças conhecidas hoje. Assim, sabe-se que vieram da Capra aegagrus, que, aliás, é das regiões persas e asiáticas, e a Capra falconezi, que é da Caxemira e do Egito.

Aspectos estruturais físicos da cabra

A aparência dela é frágil. O tamanho é de um animal fraco, débil, delicado. Até os movimentos não demonstram força alguma. Porém, não se engane. A cabra é um verdadeiro “cabra da peste” de tão forte que é. Ela se vive bem em diversos biomas pelo mundo. Por isso, não adoece facilmente. Portanto, o manejo e convivência são relativamente baratos.

A família biológica da cabra é Bovidae (bovinos antílopes, ovinos etc.). São mamíferos herbívoros (comem apenas plantas) com músculos fortes. Essa força vem de ancestrais que habitavam regiões montanhosas. Apresentam chifres e patas fendidas (é, portanto, ungulada).

A espécie doméstica é chamada Capra hircus e estão em fazendas, campos e até desertos; a espécie selvagem é chamada Oreamnos americanus e está presente em áreas rochosas dos EUA, mais precisamente no noroeste do país.

As espécies das montanhas têm peso entre 60 e 80kg e até um pouco mais de 1,70m de comprimento. Podem saltar a mais de 5m de distância. Os chifres são realmente pontiagudos e podem chegar a 30cm.

Interessante: falando em chifres, eles não se perdem durante a vida inteira do animal. Assim, é possível saber a idade da cabra ou bode a partir dos anéis que se formam ao longo do chifre.

Já em relação às domésticas, há mais ou menos 200 variações. Assim, é grande variedade de tamanho e peso. As menores – da raça anã nigeriana – não passam de 10kg; já as maiores podem ter até 115kg.

Alimentação

Por ter a mandíbula inferior menor que a superior e apanhar os alimentos com os lábios, o movimento de mastigação se aparenta com movimentos circulares. Torna-se até engraçado vê-la mastigando.

Sendo da família dos bovinos, elas são ruminantes e têm quatro compartimentos estomacais (rúmen, retículo, omaso, abomaso). Por isso, são necessárias de 11 a 15 horas para que os alimentos passem por todo seu sistema digestivo.

Reprodução

A gestação se dá quase sempre na primavera durantes 6 meses. A fêmea traz à luz até 2 filhotes. Menos de uma hora depois de nascer, os filhotes estão aptos a andar. Menos de 4 meses depois, desmamam e se tornam mais independentes da mãe. Com 2 anos e meio, estão capacitados a ter os próprios filhotes.

As espécies domesticadas alcançam até 12 anos de vida. Já as de montanhas vivem um pouco menos por conta dos perigos naturais que enfrentam.

Principais raças de cabra

Acima, você viu há mais de 200 raças da espécie doméstica. Eis as mais importantes tanto econômica quanto socialmente:

  • Miotônica ou Tennessee – É raça de tamanho médio, pelagem branca, preta ou em faixas. Segundo levantamento, toda a população dessa raça nos Estados Unidos proveio de apenas 4 indivíduos “esquecidos” no Tennessee no início do século. Uma particularidade dessa raça é o fato de portar um distúrbio neuromuscular chamado Miotonia Hereditária. Assim, quando enfrentam estado de estresse extremo, seus músculos endurecem e o indivíduo fica inerte como estátua por alguns segundos.
  • Boer – O nome vem da palavra alemã para “carne”. Aparentemente, vem das cabras indígenas africanas que parecem ter se mesclado com raças indianas. Essa raça faz parte de estudos o Esquema Nacional de Teste de Desempenho de Ovinos e Caprinos de Corte da África do Sul. A raça tem porte grande
  • Kiko – Trata-se de raça resultante de seleção efetiva para produção de carne e leite. É altamente qualificada no mercado mundial
  • Anglo Nubiana – É raça especial para produção de leite e carne, pois o porte é realmente grande. Originária da Inglaterra, nasceu de mistura de raças europeias, indianas e africanas
  • Pygmy – Como o próprio nome indica, é raça de pequeno porte. Veio das regiões oeste da África. Seus indivíduos não passam de 25kg

Aspectos comportamentais

A cabra é uma nimal manso que vive em rebanhos.


Vivem em rebanhos, o que significa que são sociáveis, mansas e amigas. Há por volta de 20 indivíduos no grupo, que é dominado por uma fêmea – a cabra propriamente dita. Porém, durante a época de acasalamento, o macho – ou seja, o bode – toma as rédeas do rebanho.

Ela normalmente passa o dia pastando dentro de seu território, apesar de não ser muito territorial. Descansa à noite, significando que tem hábitos diurnos.

Entretanto, elas precisam de companhia sempre. E da mesma espécie. Ou seja, é quase impossível manter uma cabra como animal de estimação. Quando solitárias por muito tempo, a fêmea se torna muito barulhenta. Já o macho vai fazer tanta algazarra no seu quintal ou sítio que você vai querer vendê-lo rapidamente.

Assim, se estiver pensando em criar cabra, considere a possibilidade de adquirir alguns indivíduos e nunca apenas um. Ainda, saiba que elas não gostam muito de clima úmido. E também não são afetivas quanto à água, isto é, detestam se molhar.

Aspectos econômicos relacionados à cabra

A cabra possui grande valor econômico e muitas utilidades.


Como a gente viu acima, a cabra foi domesticada há milênios. Assim, sabe-se que foi o primeiro animal usado especificamente para consumo alimentar. Antes disso, os animais eram abatidos em esquema de caça e não mantidos em cativeiro para consumo futuro.

Ela chegou ao país a partir dos portugueses, holandeses e franceses ainda durante a colonização. Entretanto, a importação de cabeças teve começou oficialmente nos inícios dos anos 1900.

Todos os brasileiros já ouviram falar na importância da cabra e do bode para a região nordestina. Em algum momento, leu em algum texto ou viu em algum documentário. Entretanto, é natural e lógico argumentar que somente o nordestino em si conhece exatamente a importância desse animal. Certamente isso ocorre porque eles vivem física e diariamente essa importância.

No Nordeste

Como complemento, é no Nordeste que há a maior concentração de cabras. Lá estão 90% de todas as cabeças de cabra do país. A região cria cabra para fins de alimentação da população – em especial a criação informal – e extração de pele. O couro da cabra embasa diversas atividades.

Segundo levantamento mais ou menos recente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, o Brasil detém quase 13 milhões de cabeças de cabra. Isso coloca o país na posição 9 do ranking de criadores mundiais. Entretanto, em relação à produção de leite, o país produz e consome apenas 1% do que se produz no mundo.

Essa contradição é indicação de que o animal ainda não é explorado de maneira adequada pelos brasileiros. Significa também um mercado amplo e ainda não ocupado.

Criar cabras é relativamente fácil

A criação de caprinos possui a vantagem adicional de se tratar de animais dóceis e que ocupam espaço consideravelmente menor do que outros animais de abate. Além da carne, pobre em gorduras; o leite e seus derivados (queijos, sorvetes, etc.), pele, pelos e esterco também são visados comercialmente.

Aspectos sociais da cabra

Em países em desenvolvimento, é praticamente impossível separar aspectos econômicos de aspectos sociais associados a determinado tema. Assim, é possível afirmar que a cabra é altamente importante no braço econômico e igualmente importante no braço social. Veja o porquê.

As áreas rurais do Brasil, de maneira geral, dispõem de pequenos rebanhos de cabra. Via de regra, ela serve como fonte de leite para a família proprietária e de esterco para sua plantação. Afinal, as condições rústicas e capacidade de adaptação do animal a ambientes diversos não requerem cuidados especiais.

Ou seja, tais características são ideais para manutenção da subsistência familiar. Assim, a cabra diminui necessidade de recursos econômicos externos, o que amplia o sentimento social da família que possui.

Aspectos culturais da cabra

A cabra faz parte de muitos mitos e lendas folclóricas e culturais.


A importância da cabra não se limita às questões econômicas, sociais ou de sobrevivência das regiões onde ela vive. Há ainda aspectos culturais que transformam esse animal em centro das atenções.

Lenda do Chupa-cabra

Se, ao se falar em cabra, a gente já pensa coisas engraçadas, quando se fala em lenda, a gente pensa em histórias antigas. Antigas, quer dizer, mais de muitas décadas. Ou séculos.

A cabra é tão surreal que gerou uma lenda há poucos anos. E isso acontece somente com personagens importantes, é ou não é? A lenda fala sobre um ser demoníaco bípede, com estatura baixa, corpo arcado coberto de escama, dois olhos enormes. Numerosos relatos diziam que se assemelhava a uma cabra que andava sobre as patas traseiras.

Diz-se que esse ser andou sugando o sangue de muitos animais na década de 90. Ou seja, há menos de 30 anos. Os corpos dos animais eram encontrados praticamente sem sangue e com mordidas no pescoço. A associação com vampiros e morcegos foi automática. Alguns daqueles relatos até chegaram a chamar o animal de “cabra-morcego” ou “cabra-vampiro”.

A lenda quase ganhou status mundial. Bem, pelo menos espalhou-se rapidamente por toda América Latina. E espalhou-se especialmente em Porto Rico, onde, aliás, teve início e onde os primeiros animais mortos apareceram. A história chegou a todas as mídias da época (falada, escrita, televisiva), também na internet, que estava em fase inicial no país.

E a ciência entrou no caso

Entretanto, a ciência já desvendou a tal lenda. E sem muitos esforços. Tratou-se, na verdade, de animais comuns: cães, coiotes, lobos que buscaram isolamento nas matas porque portavam sarna. Isso mesmo: o tal chupa-cabra era apenas animais sarnentos.

Em complemento, sabe-se que é comum animais da espécie canina atacarem suas vítimas diretamente no pescoço. Daí as marcas nessa região dos corpos dos animais mortos.

E por que foram confundidos com monstros? A sarna faz os pelos do animal caírem e resseca a pele. Ou seja, a aparência se mostra realmente horrível. Terem visto um monstro, bem, isso foi produto da imaginação coletiva, como acontece sempre nesses casos.

E por que o nome chupa-cabra? Porque os primeiros corpos encontrados eram justamente de cabras em Porto Rico.

A Cabra Cabriola

A lenda da Cabra Cabriola teve início no fim do século 19 no Nordeste do país – bem, tinha de ser lá porque, como dissemos, é lá que está a esmagadora maioria das cabeças de cabra do país. Diversas pessoas disseram que tinham visto um ser que se parecia com cabra, mas que era meio bicho e meio humano. Alegavam que tinham visto fogo sair pelos olhos e nariz, além da boca.

Deram-lhe o nome de Cabra Cabriola. Ela atacava sempre às sexta-feiras (benditas sextas-feiras) quem ousasse andar pelas ruas de certa comunidade de Pernambuco. Aliás, foi lá que a lenda nasceu. Ela também invadia casas à procura de crianças mal-educadas e choramingosas.

(Bem… certamente a gente percebe aqui que a lenda da Cabra Cabriola foi criação de alguma mãe sem muita paciência com os filhos.)

Então, é isso sobre cabra

Bem, a gente deixou duas perguntas no início deste artigo. Uma delas já foi respondida ao longo dele: cabra é o animal feminino; bode é o animal masculino. Mas, e cabrito? Que raio de animal é esse? Bem, cabrito nada mais é que simplesmente uma cabra ou bode em início de vida, ou seja, o filhote.

Se você tiver mais dúvidas sobre cabra ou quiser conhecer mais detalhes sobre criação de animal, deixe sua participação aí abaixo na área de comentários.

Por Serg Smigg

Serg Smigg é jornalista, redator, revisor e analista textual, além de roteirista e escritor. Extremo defensor das causas animais, cria seus textos apresentando conceitos claros sobre a importância desses para a humanidade e caminhos para sejam cada vez mais respeitados. A paralelo, ministra palestras inspiracionais corporativas na área de comunicação interna, externa e interpessoal social. Oferece dicas de gramática e expressividade em seu site smiggcomcorp.wordpress.com.

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