Primeiramente, animais peçonhentos são todos aqueles que possuem veneno que pode ser inoculado numa presa causando danos temporários ou permanentes na saúde da vítima.

No Brasil, os acidentes por animais peçonhentos representam, certamente, um sério problema de saúde pública em nosso País.

Segundo texto publicado em 2001 pelos autores Bochner e Struchiner, em junho de 1986 foi implantado o ‘Programa Nacional de Ofidismo’ na antiga Secretaria Nacional de Ações Básicas em Saúde do Ministério da Saúde (SNABS/MS), dando início, portanto, a uma nova etapa no controle dos acidentes por animais peçonhentos. Isso ocorreu em consequência a uma crise na produção de soro no País, que culminou com a morte de uma criança em Brasília.

Nessa época, os acidentes ofídicos, ou seja, acidentes causados por serpentes, passaram a ser de notificação obrigatória no País. Entretanto, dados sobre escorpionismo e araneísmo começam a ser coletados somente a partir de 1988.

Atualmente, com a estabilização da produção de soros, houve uma flexibilização em relação à obrigatoriedade de notificação dos acidentes.

Além disso, sempre segundo os autores Bochner e Struchiner, a adoção do ‘Sistema de Informações de Agravos de Notificação’ pela ‘Coordenação Nacional de Controle de Zoonoses e Animais Peçonhentos’ em 1995, gerou uma reação negativa por parte dos municípios e estados. De fato, a resistência foi tanta que houve interrupção do fluxo de dados, gerando, consequentemente, uma quebra de continuidade.

Levantamentos sobre acidentes por animais peçonhentos

animais peçonhentos acidentes

Costumam ocorrer muitos acidentes provocados por animais peçonhentos.

Há, sem dúvida, um grande número de casos de acidentes com animais peçonhentos registrados. A gravidade da lesão, todavia, depende da espécie que ataca, do tamanho da vítima, da quantidade de veneno inoculado e do tratamento precoce. Dependendo da situação, acidentes desse gênero podem induzir seqüelas capazes de gerar incapacidade temporária ou definitiva para o trabalho, ou até mesmo levar à morte.

Segundo o último levantamento realizado pela divisão de zoonoses no estado de São Paulo, houve um crescimento notável do número de acidentes com animais peçonhentos.

Ainda segundo estudos realizados pelo mesmo órgão, a maioria dos acidentes notificados nos últimos anos foram, sem dúvidas, provocados por escorpiões. Logo depois, vem os acidentes por aranhas e por último serpentes e outros.

A tabela a seguir ilustra a incidência de acidentes e mortalidades por animais peçonhentos no estado de São Paulo, em intervalos de 10 anos de 1988 a 2018.

AnoNúmero de Acidentes RegistradosNúmero de Óbitos Registrados
19883.91914
19986.9399
200813.0208
201845.23621

Animais Peçonhentos – Quais são os principais?

Animais peçonhentos são, portanto, todos aqueles que possuem veneno que pode ser inoculado numa presa. Entre esses estão: escorpiões, serpentes, aranhas, abelhas, lagartas entre outros.

Acidente por Cobras

animais peçonhentos cobras

Um dos animais peçonhentos mais temidos é as cobras.

O acidente provocado por cobras é conhecido como acidente ofídico. Sem dúvida, o mais freqüente no Brasil é o botrópico (90%), seguido do crotálico (7%) e, com menor freqüência, do laquético e do elapídico.

Acidente Botrópico

O Acidente Botrópico é aquele provocado por cobras como jararaca, jararacuçu, urutu, patrona, caiçaca, camboia. É, certamente, o mais freqüente no Brasil.

O veneno dessas serpentes possui ação proteolítica coagulante e hemorrágica. Portanto, quando mordem suas presas, provocam dor, edema, equimoses, bolhas, sangramento, infartamento ganglionar e necrose. A vítima desse tipo de ataque pode manifestar sintomas sistêmicos também como hemorragias, vômitos, sudorese, insuficiência renal e, enfim, choque.

Acidente Crotálico

Os acidentes crotálicos são aqueles provocados por cascavéis. Esse tipo de acidente predomina nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.

O veneno crotálico possui ação neurotóxica, miotóxica e coagulante. Pode provocar manifestações locais, como dor e edema discreto, às vezes, parestesias.

Além disso, depois de algumas horas da picada, podem aparecer sintomas sistêmicos como a fácies miastênica (ptose palpebral uni ou bilateral, oftalmoplegia, alteração do tamanho das pupilas), diplopia, paralisia do véu palatino, diminuição do reflexo de vômito, alteração do paladar e do olfato, urina escura devido à mioglobinúria e, enfim, dores musculares.

Podem, inclusive, ocorrer também hemorragias e insuficiência renal.

Acidente Laquético

Esses acidentes são provocados pela surucucu-pico-de-jaca. Entretanto, os casos de acidentes laquéticos são raros. De fato esses animais vivem no meio da floresta, onde há densidade baixa da população.

O seu veneno tem ação proteolítica, coagulante, hemorrágica e neurotóxica. As lesões locais da picada são parecidas com a do acidente botrópico. No entanto, na forma sistêmica podem ocorrer hipotensão arterial, tonturas, bradicardia, cólicas, visão escura e diarréia. Além disso, é comum o aparecimento de necrose local.

Acidente Elapídico

O acidente elapídico é provocado, enfim, pela cobra coral. Essa serpente possui um veneno que é rapidamente absorvido pelo organismo e pode provocar manifestações clínicas que geralmente aparecem entre 30 minutos até 24 horas após a picada.

Os sinais clínicos mais freqüentes são parestesias locais, vômitos, ptose palpebral, oftalmoplegia, fácies miastênica, mialgia, disfagia, paralisia de palato e paralisia de musculatura respiratória, produzindo apnéia.

Acidente por Escorpiões

Os escorpiões possuem hábitos noturnos, vivem em buracos, montes de entulhos, fendas de muros, em proximidade à residências. É muito prolífero e sobrevive vários meses sem água e alimento.

O acidente escorpiônico tem, sem dúvida, grande importância no nosso país, já que é um tipo de acidente frequente e grave. É principalmente preocupante quando ataca crianças, visto que pode provocar óbito. De fato, as picadas ocorrem com maior freqüência em crianças do sexo masculino, já que geralmente exploram mais os ambientes. As picadas ocorrem geralmente nos membros superiores (mãos é braços) com maior frequência no período de setembro a fevereiro.

Os acidentes mais graves são, enfim, provocadas pelo escorpião amarelo (T.serrulatus). O veneno tem ação neurotóxica. A picada provoca dor no local, com parestesias que surgem em minutos até poucas horas após o acidente.

As manifestações sistêmicas podem ser náuseas, vômitos, sialorréia, dor abdominal, arritmias cardíacas, hipertensão, hipotensão, insuficiência cardíaca, edema agudo de pulmão, choque, agitação, sonolência, tremores e confusão mental.

Acidente por Aranhas

animais peçonhentos aranhas

Animais peçonhentos como as aranhas também causam acidentes.

Existem, no Brasil, três gêneros de aranhas de importância médica: Phoneutria, Loxosceles, Latrodectus.

Os acidentes mais freqüentes ocorrem nas regiões Sul e Sudeste. As aranhas venenosas que habitam os domicílios e peridomícilios são carnívoras e alimentam-se de insetos. Nem sempre atacam, têm hábitos noturnos e possuem dois ferrões.

Assim como escorpiões, vivem em montes de entulhos, ciscos, montes de lenha e madeira, fendas e buracos de muros, casca de árvores. Frequentemente, refugiam-se em toalhas, sapatos, travesseiros e vestimentas nos dias frios e chuvosos.

Acidente por Phoneutria

São os acidentes provocados pelas conhecidas armadeiras. Essas aranhas atacam quando incomodadas. Mesmo assim, representam 40% dos acidentes aracnídeos, que raramente são graves.

Seu veneno é neurotóxico e provoca dor no local da picada que, posteriormente, irradia para o membro. Além disso pode causar eritema, edema, parestesia, sudorese, taquicardia, agitação, hipertensão, sudorese discreta, vômitos, sialorréia, priapismo, hipotensão arterial, choque e edema agudo de pulmão.

Acidentes por Loxosceles

É, sem dúvida, o acidente aracnídeo mais grave e ocorre freqüentemente em adultos no Sul e no Sudeste do Brasil.

A picada, na maioria das vezes, é imperceptível. Entretanto o veneno provoca intensa reação inflamatória com necrose. A lesão, então, se instala de maneira lenta e progressiva. Começa com vermelhidão cutânea, eritema, edema, cefaléia e febre alta (24-72 horas). A lesão, enfim, evolui passando por um processo de calor, rubor, equimose, lesão hemorrágica, dor em queimação e necrose seca em 1 a 12 dias com crosta que se destaca em 3 a 4 semanas.

Além da forma localizada, pode ocorrer a forma visceral, com hemólise intravascular, anemia, icterícia, hemoglobinúria, petéquias, equimoses, coagulação intravascular disseminada.

Acidente por Latrodectus

São os acidentes provocados por por viúvas negras, que ocorrem com maior frequência no Nordeste do Brasil (BA, CE, RN e SE).

O veneno atua sobre as terminações nervosas sensitivas e sobre o sistema nervoso autônomo através da liberação de neurotransmissores. As manifestações locais são, sobretudo, dor, pápula, eritema. Além disso, podem ocorrer sintomas sistêmicos como sudorese localizada, hiperestesia com infartamento ganglionar regional.

A vítima pode também apresentar tremores, ansiedade, excitação, cefaléia, insônia, prurido, alterações do comportamento, choque, contraturas musculares, hiperreflexia, dor abdominal, contraturas dos masseteres, retenção urinária. Muitas vezes, a pessoa que foi atacada tem impressão que está morrendo.

Acidente por Himenópteros

animais peçonhentos formigas

As formigas também costumam causar problemas e algumas espécies são até consideradas animasi peçonhentos.

Os himenópteros de importância médica são, certamente, as abelhas, marimbondos, formigas e vespas. A incidência das picadas por esses insetos é desconhecida, já que causam mais frequentemente reações alérgicas e não são notificadas. Há, entretanto, relatos de casos graves provocados por ataques maciços, ou seja, provocados por cerca de 300 insetos.

Acidentes por abelhas

Os acidentes por abelhas geralmente são provocados de forma múltipla, ou seja, em ataques maciços. A composição do seu veneno é responsável por reações alérgicas que, frequentemente, provocam paralisia respiratória e hemólise.

Acidentes por marimbondos

A composição do veneno dos marimbondos pode, sem dúvida, provocar dor. Esses animais não deixam ferrão, entretanto, os efeitos locais e sistêmicos do seu veneno são semelhantes aos das abelhas, porém menos intensos.

Acidentes por formigas

As principais formigas de interesse médico são a tocandira e a cabo verde, encontradas na Região Norte e Centro-Oeste. Suas picadas são, de fato, muito dolorosas e provocam eritema, calafrios, taquicardia, sudorese.

As lava-pés ou formigas de fogo são encontradas no Sudeste e Centro-Oeste, com formigueiros em gramados. Seu veneno pode provocar reações alérgicas e causar manifestações locais como dor e pápulas. Geralmente o ferimento some depois de 10 dias.

Referências Bibliográficas:

Bochner, R. e Struchiner, C.J. Acidentes por animais peçonhentos e sistemas nacionais de informação. Centro de informação Científica e Tecnológica Fundação Oswaldo Cruz, 2001.

Bochner, R. ACIDENTES POR ANIMAIS PEÇONHENTOS: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPIDEMIOLÓGICOS, AMBIENTAIS E SOCIOECONÔMICOS. Tese de Doutorado, 2003. Rio de Janeiro.

Bochner, R. Epidemiologia dos acidentes ofídicos nos últimos 100 anos no Brasil: uma revisão.