O tema deste artigo é extremamente conflitante, como já era de se esperar. É motivo de debate em todo o mundo. O debate se dá especialmente em tempos de redes sociais. E de tantas pessoas envolvidas em movimentos de defesa animal. Animais de laboratório têm sido alvo de discussão há anos. E, infelizmente, tais discussões se transformam em vias de fato em boa parte das vezes.

Afinal, segundo informações dos cientistas, não há como evoluir em pesquisas e fabricação de remédios sem uso de determinados animais. Por outro lado, os defensores de bichinhos não reconhecem essa necessidade. Esse conflito de visão ocorre porque há uma grande quantidade de fatores envolvidos. Eles geram pontos de vista extremamente diferentes em ambos os lados.

De certa forma, não há consenso nem mesmo nos dois grupos de discutidores. Há cientistas que opinam favoravelmente sobre não uso de animais de laboratórios. Do outro lado, há ativistas – mas não muitos – que alegam compreender que a ciência ainda não pode deixar de usar animais de laboratório.

E você? Qual é sua visão sobre esse impasse?

Aliás, este artigo vai mostrar os argumentos dos lados que discutem a questão. Assim, leia este artigo e, ao fim dele, mostre sua posição sobre esse verdadeiro dilema.

Os dois lados dos animais de laboratório

Animais de laboratório ainda é uma ssunto bastante polêmico.


Toda discussão envolve, no mínimo, dois lados. No mínimo. No caso de animais de laboratório, envolve os laboratórios em si e os defensores dos animais. Algum sábio desconhecido já teve a ousadia de completar essa frase: “toda discussão tem três lados: o meu, o seu e o lado certo”. Nessa discussão toda, que vem de anos e anos, o lado certo é, com toda certeza, o dos animais.

Ocorre que não é fácil se saber de imediato qual é o lado certo porque os mais interessados, os bichinhos, não têm como apontá-lo. Ainda que tivessem consciência sobre o problema em si, obviamente não teriam poder de análise filosófico-científica para avaliar o caso e decidir.

Animais de laboratório vistos por laboratórios

Animais de laboratório visto por pesquisadores são necessários.


Segundo proprietários, cientistas e funcionários de laboratórios, a ciência ainda não avançou tanto para dispensar experiências diretamente no animal. Portanto, ainda segundo esse raciocínio, muitas doenças deixariam de ser analisadas. Muitos problemas não seriam compreendidos se o uso de animais fosse completamente abolido. Isso, com certeza, refletiria na qualidade dos remédios.

Por outro lado, ainda com alegação dos laboratórios, leis específicas obrigam as empresas a testar uma substância em animais. Isso deve ocorrer antes de que ela chegue ao mercado. Além disso, os cientistas afirmam que seguem normas. Lançam mão de animais de laboratório somente quando não existe alternativa considerada plenamente eficiente.

Afinal, o objetivo é justamente esse: diminuir os riscos a humanos. Assim, isso só pode ser conseguido a partir de testes com animais de laboratórios.

Alegações práticas

  • Com a colaboração dos animais – forçada, mas, ainda assim colaboração -, a ciência encontrou solução para uma infinidade de doenças humanas. Pesquisas sobre reações químicas no organismo animal compatíveis com reações no dos humanos elevam o índice de êxito. Porém, não são apenas os humanos que se beneficiam; muitos remédios são produzidos também para o universo animal.
  • Muitos tratamentos salvam vidas humanas com experiências que envolvem animais. Vacinas, substâncias para transplantes de órgãos, insulina para deficiências renais etc.
  • Não existe alternativa confiável, pois qualquer experiência feita sem um animal vivo não reflete os dados procurados por pesquisadores.
  • Muitas doenças importantes só podem ser estudadas em um organismo vivo por conta das reações celulares. Isso ocorre porque a complexidade dos procedimentos estudados é muito alta; ainda não há material sintético capaz de reproduzi-la convenientemente.
  • Seria extremamente difícil encontrar voluntários para testes de substâncias ainda não observadas em animais. Além disso, os riscos seriam muito maiores para vida humana.

Alegações conceituais

  • Muitas pesquisas que usaram animais desenvolvidas por cientistas de renome receberam aclamação mundial. Aliás, esses cientistas chegaram a receber prêmios importantes como incentivo e agradecimento da humanidade
  • Todos os profissionais que participam diretamente com animais de laboratórios são treinados para minimizar danos e desconfortos ao bichos. Assim, são usadas muitas substâncias que combatem dores e sofrimento, desde que elas não interfiram nos resultados das experiências
  • A aplicação de conceitos éticos defendida por admiradores e ativistas da causa animal é combatida por laboratórios. Estes alegam que não usar animais em experiência também seria antiético, pois seres humanos que precisam de respostas a suas anomalias sofreriam ainda mais que os animais
  • Há ainda uma questão de lógica alegada por laboratórios. A quantidade de animais consumidos como alimento é mais de 700 vezes maior que quantidade de animais de laboratório. Nesse contexto, a ciência teria participação bem menos prática na mortandade de animais

Animais de laboratório vistos por seus defensores

Animais de laboratório vistos por seus defensores podem ser evitados.


O objetivo principal dos movimentos ativistas em defesa de animais é conseguir que parte dos lucros das empresas científicas seja usada no desenvolvimento de modelos alternativos para o uso de animais de laboratório.
  • Não há animal cujas reações químicos são idênticas a modelos de organismo humano. O número de diferenças existentes é grande o bastante para se evitar uso de animal nas pesquisas
  • Há grande quantidade de pesquisas que resultam em eficácia para os animais. Porém, ao se aplicar os resultados nos humanos, os efeitos são rejeitados porque não atingem o êxito esperado. Nesses casos, a vida do animal foi usada sem evidências de objetividade
  • Muitos estudiosos defensores de animais alegam firmemente que os bichinhos não são tão úteis à ciência como os cientistas procuram demonstrar
  • O custo-benefício do uso de animais em pesquisas não é aceitável. Há gastos com compra, manutenção e medicação para o animal e tudo isso é muito caro. Além do ônus financeiro, há ainda a questão moral. É uma vida que se perde, é a natureza sendo agredida
  • Uso de animais de laboratório é desnecessário, já que sistemas de computação altamente complexos e eficientes podem criar ambiente específico para cada tipo de experiência

Ações dos ativistas

Em 2013, dezenas de defensores de animais e de pessoas não necessariamente ativistas que discordam do uso de animais de laboratório invadiram o Instituto Royal em São Roque/SP. Saíram de lá com dezenas de animais que, segundo suspeitas e denúncias, eram vítimas de maus tratos.

Em abril de 2014, por volta de 200 defensores dos direitos de animais fizeram forte protesto em frente a um laboratório no interior de S. Paulo. O protesto foi organizado nas redes sociais e autodenominou-se “Comboio pela Vida”. Quer que as empresas parem de fazer testes em animais de laboratório imediatamente.

Já em 2013, centenas de protetores de animais e ativistas em geral fizeram manifestação contra o uso de animais como cobaias em sala de aula e em laboratórios na Universidade Federal de Santa Catarina.

Pelo mundo afora, centenas de caminhadas, eventos, protestos, encontros etc. demonstraram a preocupação latente de milhares de pessoas sobre o tema.

Legislação e compromissos sobre animais de laboratório

Há legislações para regulamentar o uso de animais de laboratório e evitar abusos.


A “briga” entre Ciência e Filosofia Ética é antiga. Remonta a séculos, desde que o humanismo passou a integrar o pensamento racional. Entretanto, essa briga ganhou ares mais visíveis, mais populares a partir das últimas décadas, quando movimentos em defesa dos direitos animais se intensificaram com as redes sociais.

Em prol dos animais

Dentre os países que ainda permitem presença de animais de laboratório para testes científicos, o Reino Unido dispõe de uma das legislações soberanas mais fortes em relação à ética contida no uso de animais de laboratórios. Ela foi “desenhada” para conter os mais fortes conceitos de respeito e consideração pela vida animal. Foi constituída em 1986.

A legislação assegura que toda e qualquer experiência com animais de laboratório deve ser supervisionada por uma equipe. A função dessa equipe é avaliar se existem eventuais danos físicos e morais embutidos nos procedimentos de manipulação do animal.

Porém, defensores da vida animal afirmam que mais de 4 milhões de experiências anuais envolvem vida animal somente no Reino Unido. Segundo aqueles defensores, é impossível que a supervisão seja feita de maneira correta. E ética.

Assim, para os defensores de animais, tendo já sido aceito pelo mundo inteiro o conceito “direito animal”, que defende os maus tratos com animais, as experiências científicas violam e invadem tais direitos. Dessa maneira, os procedimentos são inaceitáveis e tornam irrelevante qualquer benefício que eles produzam para a humanidade.

Ainda em relação à ética e à lógica, os defensores raciocinam da seguinte maneira: “eventuais danos à humanidade causados por animais são desconhecidos; já os danos causados aos animais por uso em experiências são intensamente conhecidos”. A partir disso, partem para a luta contra experiências que envolvem animais.

Europa e EUA

Segundo dados do Projeto Esperança Animal – PEA, uma das organizações mais ativas sobre a causa animal no mundo inteiro, a legislação de diversos países da Europa já proíbe uso de animais de laboratório.

Muitas faculdades de medicina da Europa não utilizam mais. Muitas técnicas e os mais diversos procedimentos substituem muito bem os animais.

Na Alemanha e Inglaterra, a necessidade de animais de laboratório durante pesquisas foi totalmente abolida. Nem mesmo cirurgias em animais são autorizadas em aulas de medicina na Grã-Bretanha.

Boa parte da Europa já não produz substâncias monoclonais a partir de reações de animais de laboratório.

Quase metade das universidades da Itália deixou de usar animais de laboratório somente entre 2000 e 20001.

Mais de 100 faculdades de medicina americanas – ou seja, mais de 70% delas – não usam mais animais de laboratório em suas aulas práticas.

Os 3 Rs

Ainda que haja legislação apropriada para uso da animais de laboratório, o conhecido e propalado “Princípio dos 3 Erres” ainda é aplicado. Aliás, é aplicado mundo inteiro. Foi criado pelos zoólogos britânicos William Russell e Rex L. Burch e publicado em livro em 1959. É a normativa ética mais conhecida e amplamente difundida entre os países para uso de animais de laboratório em pesquisas.

Trata-se de compromisso informal, ou seja, não associado a quaisquer leis, que engloba três conceitos importantes para definir e orientar os procedimentos que envolvem uso de animais de laboratório.

  • Replacement (Substituir): Refere-se à busca incessante para substituir uso de animal de laboratório por ações alternativas sempre que possível. Tais ações podem ser programas complexos de computador, cultura de células, voluntariado humano etc.
  • Reduction (Reduzir)>: Minimização na quantidade de animais de laboratórios usados em experimentos. Essa preocupação abrange troca constante e imediata de informações entre as empresas e instituições sobre técnicas encontradas para evitar uso de animais de laboratório. Isso evita que vários laboratórios que trabalhem na mesma pesquisa usem animais desnecessariamente
  • Refinement (Refinamento): estudo e renovação constantes de estratégias que busquem aliviar e minimizar qualquer desconforto ao animal. Essa ideia passa por aplicação de técnicas cada vez menos invasivas

Legislação brasileira sobre animais de laboratório

O Brasil possui suas próprias legislações em relação aos animais de laboratório.


Depois de mais de 10 anos de luta incessante para aprovação de uma lei específica sobre uso de animais de laboratório, ela foi promulgada em 2008. Finalmente, o país passou a compor o conjunto de nações com Leis sobre o tema. E já tinha passado da hora, claro.

A Lei no 11.794/2008, mais conhecida como Lei Arouca, regulamenta o uso de animais de laboratório em pesquisas, experimentos e testes científicos. Foi idealizada pelo ex-deputado federal Sérgio Arouca (daí o nome da Lei) que é também ex-presidente da Fiocruz (veja mais abaixo) e sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em outubro de 2008.

O texto da Lei é claro e o trecho mais expressivo estabelece critérios para “a criação e a utilização de animais em atividades de ensino e pesquisa científica, em todo território nacional”.

A decisão legislativa foi aguardada por muito tempo com muita ansiedade pela comunidade científica. É bastante significativa, pois representa enorme passo adiante nas relações “animais de laboratório X seres humanos”.

Entretanto, foi necessário que as instituições envolvidas se adaptassem às novas regras. Isso demorou bastante e, em verdade, o processo de acomodação de procedimentos se estende até hoje em alguns tipos de experimentos.

Com a palavra, a Fiocruz

A Fundação Instituto Oswaldo Cruz – Fiocruz é a maior organização de pesquisas médico-científicas da América Latina e uma das mais respeitadas do mundo. Foi fundada no Rio de Janeiro pelo sanitarista brasileiro Oswaldo Cruz, ainda sobre o nome Instituto Soroterápico Federal.

Em inícios de 2017, o instituto divulgou longo texto explicativo sobre uso de animais de laboratório nas pesquisas de doenças, especialmente as tropicais, que são o objetivo principal do órgão. Carla de Freitas Campos, médica veterinária e diretora do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz), discorreu sobre a importância dos animais na manutenção das expectativas para cura de diversas anomalias.

Assim, a veterinária procurou responder a questões como:

  • Isso é realmente necessário?
  • Como são criados os animais de laboratório?
  • O que se pode fazer com eles?
  • O uso de animais de laboratório é válido para obter um benefício maior para uma população?

Para Carla, os remédios são indispensáveis à saúde humana. Para obtê-los, há procedimentos técnicos complexos feitos em etapas. Algumas dessas etapas exigem colaboração de animais de laboratório, pois os resultados são analisáveis somente a partir de reações em organismos vivos.

Para a médica Carla e para a esmagadora maioria dos cientistas do mundo, a única resposta possível às perguntas acima é “Sim. “Ninguém opta por usar animais, havendo métodos alternativos validados e comprovadamente eficazes para aquele teste. Mas ainda hoje, apesar da evolução tecnológica, não existem alternativas válidas para todos os estudos que precisam ser realizados”.

Ainda na visão da médica, os modelos de organismos mais próximos do organismo humano ainda são os dos animais. Assim, a maioria das conquistas no campo das ciências biológicas não aconteceria se os animais não existissem ou não fossem usados nas pesquisas.

E você? Como vê o uso de animais de laboratório? Dê sua opinião. Mostre como você se porta perante a necessidade (ou não) de haver animais de laboratório para, via de regra, dão a própria vida para que a ciência médica e de outros nichos de mercado evolua.

Por Serg Smigg

Serg Smigg é jornalista, redator, revisor e analista textual, além de roteirista e escritor. Extremo defensor das causas animais, cria seus textos apresentando conceitos claros sobre a importância desses para a humanidade e caminhos para sejam cada vez mais respeitados. A paralelo, ministra palestras inspiracionais corporativas na área de comunicação interna, externa e interpessoal social. Oferece dicas de gramática e expressividade em seu site smiggcomcorp.wordpress.com.

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